segunda-feira, 20 de abril de 2026

 

 Princípios Filosóficos para uma Humana-Docência*.

 Por: Prof. Westerley Santos

 *Artigo revisado. Publicado originalmente pelo BOLETIM-UFMG 2009.


Uma das marcas do nosso tempo, é o Império da Informação sobre todos os tipos de saber verdadeiro. A informação vem ocupando o lugar do conhecimento onde este deveria se fazer presente, seja nas famílias, nas escolas ou na sociedade. No mundo moderno toma-se informação por conhecimento. - É a lógica da informação como capital.

  A educação não se isentou desta lógica. Podemos perceber em algumas escolas um ensino à base de coletânea ou de simples repasse de informações. - É a inversão de valores da educação. Confunde-se com freqüência; ser bem informado, com obter conhecimento. Entretanto, pode-se obter informação sem, no entanto, obter-se o conhecimento. 

  Mas, também é verdade que não se pode alcançar o conhecimento sem a informação. Então como fazer? A questão está justo na qualidade. Informação refere-se ao resultado de uma equação de dados, tem caráter instrumental, é por excelência efêmera, não expressa conceito e não tem nenhum valor de juízo moral ou ético implícito, tem sim; valor utilitário, auxiliar. O que não quer dizer que a informação não seja importante no conteúdo educacional, é sim, mas que não se confunda informação com conhecimento.

   O conhecimento vai além da informação, é o ato pelo qual o espírito e o pensamento apreendem a realidade, tem caráter permanente, expressa conceitos, ideias, traz implícito juízos críticos de valor, ético e moral, e por fim, transforma-se em consciência.

  É esse o papel da educação; qualificar de tal modo a informação, que ela se torne conhecimento para o aluno, e este por sua vez, o interiorize de tal modo que o transforme em sabedoria, para sí e sua ação no mundo. 

    Outra marca do nosso tempo é a Razão Instrumental, o vale fértil ao pragmatismo que se enraíza como erva daninha nas ações e relações dos homens modernos, e vem sempre acompanhado do imediatismo. O pragmatismo faz com que tudo o que pensamos e fazemos se transforme numa espécie de “negócio” com fins lucrativos. É o “comercio de intenções”, o “mercado de interesses individuais”, visando sempre ao fim único do lucro ou a vantagem naquilo que praticamos, e com aqueles que relacionamos, independentemente dos meios usados para conseguir o objetivo desejado. - É a lógica do “o que eu vou ganhar com isso! ” Ou “os fins justificam os meios! ”.  

  Também nesse caso, a educação não fica impune. É comum lermos em murais espalhados pela escola cartazes com a inscrição “Melhor aluno”, “Aluno destaque da Turma”, etc. E até planos e atividades pedagógicas no Ensino Médio, por exemplo, voltados para fins puramente instrumentais, mercadológicos do tipo “Como montar sua própria empresa? ”.

 Ora! Neste momento é preciso repensar a função primeira da educação. Afinal, ela é um instrumento de manutenção mercadológica, por meio da “qualificação” de mão-de-obra barata para o mercado de trabalho ou um meio de transformação social pela formação humanista do homem? – É para a lógica da utilidade e obtenção de lucros nas ações humanas que a educação se destina?

  Outra importante marca do nosso tempo, é o Individualismo exacerbado, que acaba por gerar a indiferença para com o outro e o mundo. É o elemento degenerador da solidariedade humana.

 Nestes tempos individualistas, é comum pensarmos que o problema dos outros, do vizinho, da nossa rua, da comunidade, da política, da escola ou da sociedade, não são também, problemas nossos.  Ocorre que o individualismo traz consigo, o hedonismo e o narcisismo, também marcas do nosso tempo, o que termina por negligenciar o coletivismo, a solidariedade e a pluralidade. - É a lógica do cada um por si e Deus por todos!

    Também na educação podemos perceber estes fenômenos. É comum no ambiente escolar, perdermos a noção do todo, a visão de conjunto do processo educacional, do trabalho coletivo, da solidariedade entre docentes, discentes, gestão e funcionários. E isso, invariavelmente, nos coloca numa posição particularizada, individualista, isolada, desconexa e sem rumo.

  Por tudo, tanto o império da informação que negligencia o conhecimento verdadeiro, como o Pragmatismo-tecnicista- mercadológico, que obscurece a educação humanista, quanto o individualismo que degenera a solidariedade humana, todos juntos, acabam por gerar interpretações falaciosas e atitudes equivocadas diante das deficiências e dificuldades apresentadas tanto pelo aluno, quanto pelo professor, tanto pelo ensino, quanto pela aprendizagem tanto pelo pedagogia instrumental quanto pela escola e, mudar essa racionalidade é o desafio que a educação pós-moderna e crítica nos exige que aceitemos.

    Pois bem, toda esta reflexão cairia no vazio se dela não extraíssemos algumas conclusões que são na verdade, novas proposições. Afinal! Como mudar essa realidade provocada e mantida por uma educação cada vez mais tecnicista e instrumental? E que tipo de professor essa mudança exige? 

    Penso que a resposta está numa humana-docência fundada em princípios filosóficos para a educação.   A humana–docência pode ser a alternativa para a educação pós-moderna e, exigirá mais que professores profissionais, ou simples cumpridores de seus deveres trabalhistas ou ainda, bons técnicos especialistas em determinadas disciplinas ou conteúdos.

  A educação pós-moderna deve ser humanizadora do homem e, exigirá professores-problmatizadores e críticos que desenvolvam mais que a docência, desenvolvam uma humana-docência pois esta função humanizadora prescinde dos fundamentos Axiológicos da Filosofia.

  A base para essa educação deve ser necessariamente   filosófica.   

  Mas, que tipo de professor essa educação exige? A resposta não é outra senão um Professor que se envolva, que pesquise, que se (pré) ocupe com a formação do homem integral.

  Ocorre que, o mundo moderno, “proletarizou” o professor, transformando-o em funcionário, cada vez mais burocratizado em meio a diários, lançamentos, formulários, regras inibitórias, distanciando-o da verdadeira ação educadora, de preceptor, orientador da formação ética, moral e, portanto, mais humana do educando.

 A escola por sua vez, precisa discutir com aqueles que a compõe para definir e assumir para si, princípios filosóficos universais que vão orientar a ação pedagógica desse educador rumo a finalidade verdadeira da educação. O governo deve tomar a educação como valor político, social e humano para que o educador tenha suporte institucional, material, intelectual e financeiro suficientes para realizar a humana-docência.

 Contudo, Professor, escola e todos envolvidos nela, governo e inclusive as Universidades devem ter clareza dos princípios que orientam e que servem de guia para uma pedagogia humanizadora e formadora do ser ético.

  São estes os princípios filosóficos para uma Humana-Docência: o da Intersubjetividade; que percebe o aluno como sujeito e estabelece com ele uma relação subjetiva, de sujeito para sujeito. O da Individualidade; que entende que cada aluno é um ser único e distinto. O princípio da Dialética ou do Diálogo; que opta pelas relações dialogais e pela pedagogia da pergunta, que produz situações e desenvolve os processos educativos de ensino/aprendizagem numa relação dialética em comum acordo com o aluno.  O da Eqüidade; que visa a igualdade, mas que considera as diferenças. O princípio da Autonomia; que nos faz atuar junto ao aluno, na construção da sua autonomia intelectual para que ele seja capaz de tomar decisões por si, com consciência ética, capacidade de fazer juízos corretos de valor e responsabilidade pessoal e social. Do Conhecimento; que passa pelo critério do desenvolvimento das potencialidades, habilidades e criticidade dos alunos. Os da Totalidade; que nos garante ter uma visão de conjunto da educação e da Escola e nos faz contextualizar e significar o nosso conteúdo pedagógico em relação aos demais. O princípio ontológico ou da formação do Ser do aluno; que visa a formação do Sujeito da aprendizagem. - É papel do Professor identificar esse sujeito para dar sentido ao ensino de sua Ciência.

 E a pergunta que leva à investigação para a descoberta desse sujeito deve ser: que aspecto do ser humano minha Ciência quer formar? Isso se o Professor quiser dar significação ao ensino e fazer com que o aluno descubra o significado de sua aprendizagem.

  E finalmente, o princípio Axiológico ou dos valores, sobre todos o desenvolvimento d Consciência Ética.  O agir e orientar a ação humana dentro do preceito do bem, do justo, da antiviolência, da solidariedade, da liberdade com responsabilidade, do respeito à vida dos indivíduos, das espécies e do planeta. Educar com respeito á pessoa humana, a partir da pessoa do aluno, educar para o convívio solidário entre os indivíduos.   Estes são, há um só tempo, os princípios e fins da humana-docência, uma docência orientada pela Filosofia.

    Por tudo, podemos concluir que; a educação é a ação mais humanizadora do homem, e por isso exige uma humana docência. E o educador, é o principal agente dessa ação, aquele que ao praticá-la, se faz dialeticamente Sujeito. Consciente disso, sua função primeira; é então, a de humanizar, e, sua prática; torna-se, portanto, a prática mais humana, e a arte do ensino; necessariamente deve se converter para o ensino das humanidades.  Só assim, Educação, Escola, Professores e Alunos, Ensino e Aprendizagem, estarão se realizando em suas finalidades primeiras.

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