domingo, 6 de maio de 2012

CRISE DE AUDIÊNCIA NO ENSINO MÉDIO OU FARSA IDEOLÓGICA? (parte 3/4)




Foto do Filme: EU,ROBÔ

 Conforme prometido continuo o exame da pesquisa divulgada na internet sob o título “A crise de Audiência no Ensino Médio. Nesta terceira parte procurarei demonstrar, a insuficiência dos vetores ou premissas usadas para afirmar o problema da suposta “crise” E.M.

Observações Preliminares:


1- Reafirmo com esta análise minha intenção de apresentar o contraditório da pesquisa para que o público interessado tenha parâmetros para julgar o problema sob mais de um ponto de vista. Também na condição de professor, comprometido com a educação para a busca da consciência crítica e de cidadania do aluno e, com o papel social de minha profissão, julgo no dever de esclarecer pontos importantes não explicitados pela pesquisa no seminário de S.P. e outros explicitados que insinuam responsabilização ou culpabilidade do professor pela baixa qualidade da Educação brasileira.


2  - Portanto não se trata de modo algum de corporativismo ou de ataques indiscriminados a quem quer que seja, mas de um debate de idéias e da exposição de pontos de vistas que visam contribuir para a qualidade da educação brasileira com valorização dos seus profissionais.


3 - Sendo um debate franco, em princípios democráticos, e no uso do direito de expressão de idéias e opiniões conferidas a todo cidadão pela constituição brasileira (Art. 5º, IV, VIII, IX,) entendo que não cabe nenhum tipo de retaliação ou medidas que denotem intolerância, pelo contrário, entendo ser uma excelente oportunidade para discutir em alto nível a situação do Ensino Médio, do professorado, dos alunos, da escola, do ensino e aprendizagem, da educação brasileira.


4 - É por este motivo que minhas análises são críticas e propositivas, justamente para contribuir com minha experiência direta com o Ensino Médio para uma educação verdadeiramente de qualidade, capaz de edificar o homem e uma sociedade justa e promotora de oportunidades de vida digna para todos os alunos e professores.
5 – Por fim, advirto ao leitor que por se tratar de uma pesquisa densa e com muitos pontos controversos, optei por oferecer  um exame mais demorado e aprofundado, que uma análise rápida e superficial.


 1)       - A INSUFICIÊNCIA DOS VETORES OU DAS PREMISSAS DA PESQUISA-  

Segundo os signatários a pesquisa utilizou a seguinte equação metodológica para aferir seus resultados: Vetor 1: “oportunidade de aprender” (foco no aluno) + Vetor 2:oportunidade de Ensinar” (foco no professor) = Resultante (Audiência*).

Pode-se objetar que cada vetor apresentado traz em si uma premissa. O vetor 1   denota a premissa (a presença é oportunidade de aprender) e o vetor 2 traz a premissa (a presença do professor dando aula é oportunidade de ensinar). 

Nesta nota convido o leitor a uma análise pormenorizada sobre a validade ou invalidade destas  premissas, pois, desconfio que tais proposições não são suficientes para tornar as inferências advindas desta equação, verdadeiras. Uma vez que não encontro na realidade prática da docência, relação direta e suficiente entre a presença do aluno ou do professor e a oportunidade de aprender de fato, no sentido colocado pela pesquisa.


Isso me faz levantar a hipótese de que os vetores ou premissas não são suficientes para demonstrar o conteúdo daquilo que a pesquisa afirma demonstrar a partir delas. A julgar pela experiência da realidade, estes vetores não significam necessariamente, oportunidade de aprender e de ensinar de fato. Se estiver correto, a inferência da pesquisa será invalida também pela insuficiência de suas premissas.  


                 2)   Análise do Vetor 1 - Premissa: “Presença é Oportunidade De Aprender“.

Quando se fala em oportunidade de aprender, o termo “oportunidade” está se referindo a qualidade de oportuno, de uma condição favoravelmente dada, propícia. Está se falando daquilo que está apropriado, cômodo, conveniente, conforme, adequado. Quando se considera que presença é oportunidade de aprender, está se considerando implicitamente que os atributos inerentes à oportunidade, estão dados na presença, o que não confere com a realidade de sala de aula das escolas públicas.

Como foi colocado pela pesquisa, está se considerando implicitamente que a presença do aluno em sala de aula é ela própria, em si mesma, a condição ou situação de oportunidade para o aluno aprender.

Ocorre que a presença do aluno não é em si mesma, oportunidade de aprender,  não se confunde com condição suficiente ao aprendizado.

A presença do aluno é apenas uma das condições do processo de ensino e aprendizagem. Sem dúvida necessária, mas não suficiente. Não é suficiente por falta das outras condições, que são as  materiais objetivas, e que denomino de Condições de Suficiência.  Por tanto, a presença é uma condição necessária, mas não é uma condição suficiente.

O equivoco da pesquisa neste ponto foi colocar o foco da oportunidade de aprender apenas no fator presença, pois, deste modo, este fator torna-se uma “situação”- já que não foram considerados os elementos que antecedem e sucedem a presença do aluno. Ou seja, não se considerou as condições que compõem a presença do aluno em sala, e sim, apenas o momento da presença em sala.  Isto a caracteriza no máximo como uma posição em relação a um ambiente determinado.

Categorizar, conscientemente ou não, presença, como situação, quando ela é uma condição, muda tudo! Vista como “situação”, a presença assume um caráter perci, de dado único e suficiente à oportunidade de aprender, uma vez que, como “situação”, os elementos anteriores, justapostos e,  posteriores, dos quais ela depende e interage estarão anulados.  Ignorar estas condicionantes é o mesmo que dar à presença um caráter, um status de suficiência ao aprendizado, o que de fato ela não tem e veremos por quê.

  3) A PRESENÇA DO ALUNO EM  SALA  NÃO É  UMA  CONDIÇÃO SUFICIENTE PARA O APRENDIZADO.

Uma situação é um recorte, algo posto, dado, sem necessidade de antecedentes e procedentes e, portanto,  assume um caráter de suficiência (como está sendo entendido pela pesquisa). Já uma condição é uma reunião de circunstâncias, algo de que se necessita para algo. É alguma coisa a ser criado, construído, provocado, um dever-ser, (como deveria ser entendido). Logo; se entendessem que presença é uma condição, perceberiam imediatamente que ela é uma entre outras e que por isso mesmo, não é suficiente, necessitando das outras condições (antecedentes, justapostas e procedentes) para se estabelecer a oportunidade de aprender de fato ao aluno.

A conseqüência natural desta reflexão seria a busca pelas outras condições de suficiência à oportunidade de aprender. Imediatamente se indagaria sobre: quais seriam estas outras condições para se determinar a oportunidade de aprender, além da presença em si mesma.  Deste modo os signatários perceberiam que a oportunidade de aprender não depende só da presença e que este fator é necessário, mas, carece de outras condições de suficiência complementares.

E quais seriam estas condições de suficiência que faltam para compor o quadro da oportunidade de aprender, junto a presença? Para aquém da condição de presença há as condições materiais objetivas e para além, falta às condições subjetivas. Esta tríade responde a indagação anterior e compõe a necessidade e suficiência da oportunidade de fato de aprender.
Alias o que se percebe na realidade da Escola, é o aluno presente em sala, mas não as condições materiais objetivas e as condições subjetivas para que esta presença se transforme em oportunidade de aprendizado. – Nesta análise não vou me deter as condições subjetivas¹ ao aprendizado, para o proposto, basta analisar as condições materiais objetivas para o ensino e aprendizado.

Ao entender apenas a presença como oportunidade de aprender, está se desconsiderando condicionantes sem as quais, a oportunidade de aprender de fato, não estará dada, estará inclusive sendo retirada do aluno. O que significa que, há de se considerar não só a presença do aluno, mas também a qualidade desta presença. E a qualidade é diretamente proporcional às condições materiais objetivas  dadas para que esta presença seja aproveitada como oportunidade de aprender de fato.

De outro modo; para ter a oportunidade de aprender de fato, não basta o aluno está ali, presente em sala de aula. Ele precisa estar ali e, junto dele, todas as condições materiais objetivas  disponíveis e acessíveis ao aprendizado. A presença so se justifica como oportunidade de aprender neste contexto.

E mais, as condições materiais objetivas devem ser apropriadas ao ensino, à Escola, a sala de aula ao professor e aos alunos.

  4)  A OPORTUNIDADE DE APRENDER PRESSUPÕE  A GARANTIA DAS CONDIÇÕES MATERIAIS OBJETIVAS DE ENSINO.
A falta das condições materiais objetivas ao ensino e aprendizagem, se observa na maioria das escolas, brasileiras, inclusive nas capitais. Muitas escolas sequer têm mobiliário decente e apropriado para os alunos e professores. Não há as mínimas condições materiais e físicas para se promover o aprendizado, como: carteiras apropriadas, quadros, bibliotecas e laboratórios bem equipados, material pedagógico diferenciado disponível e atualizado, equipamentos, instrumentos, acesso às tecnologias pedagógicas entre outros. E não basta equipar as escolas, é preciso treinamento aos professores e disponibilizar aos Diretores um sistema de assistência técnica permanente.


Como sabemos, no interior do Brasil, há escolas em que os alunos e professores estão lá, presentes, como querem, mas de pé ou sentados em caixotes e até amontoados pelas salas de chão batido como se vê em algumas reportagens. E querem chamar isso de oportunidade de aprender. Eu chamo de abandono de oportunidades!

Por tudo, o processo de ensino e aprendizagem não se inicia e muito menos termina com a presença do aluno em sala de aula, como deixa transparecer a pesquisa. Eu diria que de uma ponta a outra do processo todo, a Presença é apenas um passo. Como veremos a seguir.

   5)  AS QUATRO ETAPAS DAS CONDIÇÕES MATERIAIS OBJETIVAS OU CONDIÇÃO DE  SUFICIÊNCIA AO APRENDIZADO.
As Condições Materiais Objetivas ou Condição de suficiência, são etapas da oportunidade de aprender que devem ser garantidas antes, durante e depois da presença do aluno em sala, e, devem ser atendidas necessariamente no conjunto, para que a oportunidade de aprender seja suficiente e se dê de fato.


É um processo composto no mínimo por quatro etapas: 1ª)Condição de acessibilidade. Levar o aluno a escola.  2ª) Condição de presença. Garantir a permanência do aluno na escola.) Condição de ensino/ aprendizagem. Desenvolver o ato mesmo de ensino/aprendizagem em sala de aula com apoio das TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), formação continuada, valorização salarial e social do professor. 4ª) Condição de continuidade da aprendizagem. Oferecer garantias ao aluno para realização dos estudos pós escola e Ensino Médio.

 É este conjunto que define as condições materiais objetivas de ensino/aprendizado e que, portanto, determina a oportunidade de fato de aprender.

Sem estes quatro passos iniciais do processo, não há oportunidade real de aprendizagem, sem este conjunto, a oportunidade de fato não estará dada. Sem eles o que se vê, é um eterno esforço para ter a oportunidade de aprender, e do professor em ensinar.  Mas, esforço para ensinar e aprender não é oportunidade, é busca de oportunidade e, só se busca o que não se tem.

Entretanto, para delimitar o lugar da condição necessária que é a presença do (aluno e professor) no contexto da aprendizagem, será preciso discriminar as etapas citadas da Condição de suficiência negligenciadas pela pesquisa no seminário de São Paulo. E assim determinar, por fim, a participação relativa (insuficiente) da presença no processo da oportunidade de aprender.

 6) A NÁLISE DA CONDIÇÃO DE   SUIFICIÊNCIA PARA  A  OPORTUNIDADE DE APRENDER DO ALUNO

1º passo - condição de acessibilidade ou (levar o aluno à escola). 

Esta etapa é fundamental, pois sem ela não haverá presença e conseqüentemente não haverá aprendizagem escolar presencial. Mas este passo depende de fatores externos a escola, são aspectos de responsabilidade social governamental e empresarial, como a questão da seguridade Social (violência), das relações de trabalho em que o aluno é submetido fora da escola (exploração da mão de obra), da mobilidade urbana, (localização e transporte), do custo do transporte coletivo no orçamento familiar, (renda familiar) e, de segurança alimentar, enfim, da situação de risco e de vulnerabilidade social do aluno. Sem falar nas condições psicológicas e emocionais do aluno em relação a  estrutura familiar que situa-se nas condições subjetivas para o aprendizado e que abordarei em notas².

Todos estes elementos antecedentes à presença do aluno fazem parte do conjunto que compõe as oportunidades de aprender, pois, eles interferem positiva ou negativamente na qualidade da presença e não depende nem da escola e nem do professor atender estas necessidades.

Não vou aqui demonstrar como, e em que aspectos, cada um dos itens citados acima interfere na oportunidade de aprender do aluno. Há diversos estudos disponíveis sobre cada um deles. Para detalhes sugiro a leitura do relatório da UNICEF. “Situação da Adolescência Brasileira – 2011”.

Mas, como dado de realidade deixo dois exemplos vividos pelos alunos e professores Brasil a fora:

 1º Exemplo :  Quanto a acessibilidade e mobilidade.

É facilmente constatável que a especulação imobiliária não destina áreas nobres dos loteamentos à construção de escolas.  As áreas bem localizadas, iluminadas e sem risco de alagamentos, são áreas de maior lucro dos empreiteiros, construtoras e imobiliárias. Às escolas sobram as chamadas “áreas nom edificantes”. Por conta disso, as escolas publicas em geral, estão localizadas quase sempre no escondido mal iluminado dos bairros ou as beiras de um córrego ou num alagado soterrado e utilizado para edificar o prédio escolar. São prédios inadaptados às necessidades dos alunos, - nem estou contando para os portadores de necessidades especiais.



Estes aspectos de acessibilidade interferem diretamente na freqüência do aluno, pois dizem do inapropriado, do incômodo, do inconveniente, do desfavorável, de barreiras físicas e geológicas, que geram dificuldade de acesso, o que dificulta a freqüência do aluno e conseqüentemente uma condição necessária à oportunidade real de aprender.  São fatores que dizem da acessibilidade física à escola. - Há quem diga que há falta de interesse do aluno em aprender, eu digo que há falta de interesse das autoridades em oferecer as condições apropriadas para o aluno aprender. Senão vejamos:


Quando o córrego na porta da escola ou do “barraco” onde o aluno mora transborda, este simplesmente não consegue sair de casa ou chegar à escola. É um dado real, outros semelhantes são recorrentes em todo Brasil e a pesquisa não abordou, pois, diz de uma responsabilidade social que não é da Escola e nem dos professores e sim, dos governos e empresários.

Outro dado é a distância percorrida pelo aluno para chegar a escola.  A pesquisa deveria perguntar: o aluno vai e vem da escola a pé? Ele passa por locais perigosos a noite? É uma aluna? - Gênero mais vulnerável a violência e ataques sexuais - vai e vem de transporte coletivo? Neste caso, quanto gasta de condução? Sua família tem renda para bancar este custo? Estes são problemas reais vividos pelos alunos e que interferem diretamente na sua freqüência. (ver relatório citado da UNICEF-2011).


Eu mesmo tenho alunos (as) que andam quilômetros para ir e voltar da escola, muitas vezes sem o café da manhã. E chegam a escola e vão direto para as salas de aulas, só farão a primeira refeição do dia as 9:30 da manhã, já terão se passado de 3 a 4 horas sem se alimentar, isso se tiverem jantado na noite anterior. Estão presentes, mas em que condições físicas e alimentares? E ainda têm aulas de Educação Física e provas antes da primeira refeição do dia. Será que isso interfere no seu rendimento escolar? Imagine esta situação repetida pelos alunos todos os dias da semana, todas as semanas do mês, por todos os meses do ano, durante três anos consecutivos, contando só o Ensino Médio. Chamo a isso de incentivo à desistência escolar e a não aprendizagem.


Onde está a parcela dos empresários do transporte coletivo, por exemplo, que impede por todo tipo de lobby o baixo custo da passagem para estudantes? Onde está a atuação do governo que não disponibiliza transporte escolar estatal gratuito aos estudantes do Ensino médio, ao menos aos mais carentes? - Como prevê a Constituição.  Será justo imputar o baixo rendimento destes alunos aos professores, a escola ou a eles mesmos?  


2º Exemplo: Quanto a exploração pelo Empregador.

No caso do aluno do noturno, a pesquisa deveria perguntar: o aluno é trabalhador? Qual o seu horário de trabalho? O patrão permite que ele tenha tempo e oportunidade para estudar e realizar as atividades extra-escolares no trabalho?  - No Brasil mais de 1 milhão de meninos e meninas de 10 a 15 anos trabalham explorados em subempregos. Todos eles têm patrões. (IBGE 2010).

Convivo diariamente com alunos que não conseguem chegar no horário da primeira aula noturna,  durante todo ano, pois seus patrões não os liberam um minuto mais cedo para estudarem, pelo contrário, força-os a  sair mais tarde do trabalho e até cobram horas extras a serem “pagas” aos sábados, pois o aluno-trabalhador não as fez durante a semana, como todos os outros trabalhadores – justificam os patrões.


Estes casos não são exceção, são regras. É a realidade vivida por muitos alunos e interfere diretamente naquilo que a pesquisa chamou de oportunidade de aprender. Podemos culpabilizar o professor pelo baixo rendimento destes alunos? Podemos culpar a escola pela desistência e abandono deste aluno? – Conheço professores espalhados por várias escolas que auxiliam alunos nesta situação com aulas em horários extras sem nada ganharem para isso!


No entanto, o empresário que explora o jovem aluno e dificulta sua vida escolar não foi abordado no seminário de SP. Preferiram culpabilizar o professor e a baixa atratividade da escola pelo rendimento do aluno. Ora! Até quando teremos empresários dificultando a ascensão educacional e tudo que ela representa aos jovens estudantes trabalhadores, as famílias e a Sociedade? Quem vai exigir um pouco de responsabilidade e solidariedade social destes empregadores? Quem vai providenciar leis que protejam e que sejam aplicadas de fato em defesa da oportunidade de estudar do jovem estudante trabalhador? O problema é de crise do Ensino Médio ou de crise de consciência ética e social dos que detêm o poder político e econômico?


O fato é que a maioria do empresariado brasileiro ainda pensa e age com os trabalhadores, jovens ou adultos, homens ou mulheres, como no início do séc. XIX . Ainda percebem o trabalhador como adversário, larápios que precisam ser revistados na entrada dos turnos ou vigiados por câmeras e detectores de metais no interior das fábricas.  A mesma prática vigilante dos presídios de hoje e das minas de carvão no início do Sec XIX.


É só observar! Sustentam uma hierarquia monárquico-feudal em sedes e salas suntuosas como palácios, em grandes centros econômicos das principais capitais do país, enquanto o trabalhador, inclusive jovens estudantes, se viram em locais insalubres, com banheiros e cozinhas fedidas, quando os tem.


A visão do empresário brasileiro ainda é do lucro máximo e rápido a qualquer custo, principalmente sobre a exploração da mão de obra que amarga os piores salários do mundo, enquanto as empresas brasileiras alcançam os maiores superávits do planeta, principalmente os Bancos. (O Salário do professor é o 3º pior do Mundo - Pesquisa UNESCO/OIT , 2011).


No Brasil do Séc XXI ainda permanece a lógica servil e escravocrata nas relações de trabalho, como resquícios de uma abolição tardia! Ainda assim, culpam o professor pelo baixo rendimento do aluno do noturno, quando não o próprio aluno, enquanto este é explorado de 12 a 14 horas de trabalho diário pelo empregador que vem extorquindo não só sua força de trabalho jovem, mas também sua oportunidade de evoluir como pessoa por meio dos estudos.


Sob o pretexto da empregabilidade, e do crescimento econômico, promovem na verdade a subempregabilidade exploratória, mantendo a pobreza sob controle para que a miséria relativa não se transforme em miséria absoluta, com a ajuda do assistencialismo governamental das bolsas pobreza. Mas este assunto não foi abordado na pesquisa divulgada no seminário de SP.

Os exemplos citados são casos reais que mostram a necessidade de providências antecedentes á presença em sala de aula e que determinam a qualidade da freqüência dos alunos. Trata-se de abandono social, causas, conseqüências e responsabilidade do Estado e do empresariado e, que interferem na escola, determinando a suficiência ou insuficiência da oportunidade de aprender. O que demonstra que o abandono ou baixo rendimento do aluno, não é responsabilidade dos professores ou da Escola e muito menos uma suposta crise em um nível de ensino, como afirma a pesquisa.

2º passo: condição de presença ou permanência do aluno na escola.

O segundo passo a ser considerado na composição da oportunidade de aprender de fato ou de sua suficiência é, a permanência do aluno na escola. E agora sim, a pesquisa tocou num ponto válido.

Embora não possa imputar culpabilidade a escola, ainda assim, alguma coisa ela precisa fazer para tornar-se mais atraente, apesar da situação até aqui descrita. Este fator é fundamental para a permanência do aluno.

Mas o que é uma escola atraente? Constantemente comete-se um erro ao definir esta questão. Quase sempre se esquecem de perguntar aos principais interessados, a quem por necessidade, sabe a resposta; os próprios alunos! Não vou aqui cometer os mesmos erros dos estudiosos e apontar o que fazer. Perguntemos a quem sabe pela própria experiência da falta. 


A mim cabe observar outros fatores do ponto de vista exclusivo do educador. A permanência do aluno na escola não se dará apenas pelo prédio e salas adequados e bem adaptados, espaços de convivência, praças de alimentação, boas bibliotecas e laboratórios, tão pouco, por boas aulas e bons professores. Sim! Estes elementos são imprescindíveis, mas, são complementares à prática mais humana e essencial da Educação.


Além destas condições, a permanência do aluno na escola se dará principalmente, quando ele, aluno, se sentir objetivamente parte integrante daquele espaço. Quando ele for valorizado, bem recebido, quando ele se sentir importante e ativo na vida da escola e de seus estudos. Só assim ele vai sentir que a escola é importante para sua vida. - Notem que estou usando o vocábulo, sentir propositalmente, pois não se trata de conscientizar ou compreender. Trata-se de experienciar com os sentidos e com a prática mesma. Trata-se de viver sensações, de sentir-se parte deste todo único que o ajuda a marcar as fases da vida, que é a Escola. A Escola precisa cultivar (educar) o sentimento de pertença do aluno, pela prática. Ele precisa sentir que ele mesmo é parte da escola.


É uma questão de desenvolver pela sensibilidade, a natureza social, política, cultural e de linguagem do homem, como a cidadania, a ética, os valores, a oportunidade do diálogo. É a estética social do aluno para com a escola e desta parta sua experiência de vida.


O aluno permanecerá na Escola quando ele for reconhecido como sujeito do processo Escolar, quando for ouvido,- e não estou dizendo de uma ação de sala de aula apenas, de iniciativa isolada de um ou outro professor, estou me referindo a um princípio geral que deveria ser adotado pela escola e Educação. Do contrário, enquanto as regras internas visarem a punição pela punição e não o ensino, enquanto o aluno se sentir mais em um presídio, que em um espaço de conhecimento, convivência , cultura e relacionamentos, enquanto a manifestação de Seu Ser político for tolhida, enquanto a escola torna-se uma extensão e exemplo de tudo aquilo que  ele nega e contesta na sociedade, então ele se afastará. Como nos afastamos do que nos provoca a dor e o desprazer.


A ação objetiva para a oportunidade de aprender, no que tange a permanência do aluno na escola,  é dada pela redefinição, reorganização e redirecionamento dos valores Educacionais da Escola para com o aluno, das normas internas, da gestão com foco na pessoa do aluno, da aproximação e dialogo respeitoso, colocando-o no centro das ações, decisões e objetivos, de onde e para onde todo esforço pedagógico e de prática da cidadania deve convergir.


Pó outro lado, não sou a favor de deixar todo o processo de organização escolar por conta do aluno, entendo que lhe falta ainda a maturidade política, intelectual e de conhecimentos mais avançados para saber escolher os rumos da sua própria educação. Mas sou a favor da parceria com o aluno, do trabalho conjunto, político-pedagógico, didático, participativo e de decisões para definirem juntos os rumos da escola e de sua educação.
O saber, a educação devem ser uma ação compartilhada.


Um exemplo: por que não se adota na escola, o Conselho Pedagógico Estudantil e também de pais, não digo dos grêmios estudantis que estão mais voltados para as questões políticas da organização, direitos e movimentos estudantis gerais, e nem dos colegiados escolares que acabam sobrecarregados pelos a fazeres administrativo-financeiros, digo de um Colegiado pedagógicos com a participação, voz e voto dos alunos, interno, específico, como um braço da gestão pedagógica da escola, com e para os alunos, orientados pelos especialistas e professores para ajudar na organização pedagógica da escola, sempre com a participação efetiva do aluno. Um conselho que participaria da elaboração do calendário escolar, do quadro de horários e distribuição de aulas, do tempo de intervalo, das normas e regras de funcionamento escolar, dos processos de avaliação e outras medidas pedagógicas.


Entendo que este pode ser um meio para o aluno se perceber construtor ativo de seu aprendizado e co-responsável pela escola e por sua educação. E funciona, haja vista as comissões de formaturas, eventos esportivos e culturais realizados periodicamente nas escolas com a participação efetiva dos próprios alunos.


Se a escola e governantes entendessem que a educação é um ato dialético de exercício para a aprendizagem político–social, que o ensino-aprendizagem é um exercício, teoria e prática, de cidadania, cotidiano, tendo o aluno como sujeito desta prática, veriam que o aluno permaneceria na escola voluntariamente. Digo por que experimento trabalhar com o aluno como agente de sua aprendizagem no pequeno espaço e tempo de sala de aula. Resguardadas as proporções, afirmo; os resultados são surpreendentes.


E não é difícil de entender porque com ações deste porte a escola se tornaria mais atraente aos alunos.  É que é da natureza humana; somos seres sociais e políticos. Quem não quer freqüentar e participar de um ambiente em que sua voz é ouvida e respeitada? Em que suas idéias, opiniões, ações e atividades são reconhecidas, discutidas e aplicadas? Quem não quer participar de um ambiente em que se sente construtor, sujeito ativo e valorizado? Quem não quer participar e freqüentar um lugar que lhe ofereça lazer e alegria? - Toda busca humana é pela realização de sua humanidade.


Onde e quando participamos por escolha e decisão próprias, é para nós o reino da liberdade, portanto, participamos com prazer; ao contrário, onde e quando o outro decide por nós, não nos ouve, e nem participamos como sujeitos, e ainda somos punidos por isso, é para nós, o reino da necessidade, portanto, participamos com dor e desprazer. A tendência é o abandono!


A chave para a presença e permanência do aluno na escola é o prazer, a significação e a realização em estar ali. Escola atraente é escola que oferece ao aluno as condições materiais objetivas,  apropriadas, junto das condições subjetivas; a qualidade no ensino, e as condições políticas; os meios para se exercitar como sujeito de sua história na prática cotidiana do ensino e aprendizado, o exercício prático da democracia, da cidadania, da descoberta de valores essenciais que lhe sirvam de guias, da prática da afetividade, do prazer, do lazer e da alteridade, tudo isso na companhia e nas relações com seus grupos sociais, a partir do ambiente sócio-escolar adequado, lugar onde o jovem passa 1/3 da sua juventude.


Tenho observado um fenômeno psicossocial na escola: regra geral o aluno tem uma relação afetiva com a escola, ele ainda a considera de algum modo, um lugar de sua realização, socialização, pelo menos em parte, um lugar de encontros, ele ainda a tem como espaço de convivência propício as suas experiências coletivas primeiras; de sujeito político, social, axiológico, afetivo, assim como a família é para ele o lugar próprio de suas experiências individuais primeiras, afetivas e morais mais tênues.


No entanto, a própria estrutura organizacional escolar interna, fortemente mais disciplinar e proibitiva que didática, mais administrativa que pedagógica, mais punitiva que dialogal , mais de instrução que de ensino, mais adestradora que conscientizadora, tudo em nome da ordem e da obediência submissa do aluno, em detrimento a afetividade e a participação mais crítica nos processos decisórios de sua educação, somados a falta de oportunidades reais de aprender, estão, aos poucos, desterritorializando o aluno e o expulsando de seu lugar mais adequado de socialização. Os alunos estão preferindo as esquinas, as praças, os shoppings, as igrejas ( na melhor das hipóteses), à Escola. Estão preferindo o celular e internet à aula, não por culpa do professor, mas pelo sistema doutrinário de gestão escolar.


Por tudo, não me admira os crescentes índices de abandono e de jovens fora da escola. E erram no diagnóstico aqueles que pensam resolver o problema com mudanças curriculares para inclusão de ensino profissionalizante. Acabam por impor-lhes uma vontade e necessidade mais mercadológica que de sua fase escolar ou de vida. Em nome de um futuro hipotético, tomam-lhes o presente real.

 
3º passo: Condição de ensino e aprendizagem com qualidade.


Chegamos ao terceiro passo de nossas condições materiais objetivas ou condição de suficiência para o aprendizado de fato. Entendo que já abordei grande parte deste item no texto (2) desta crítica publicado na internet. (Os Erros Das Proposições e a Invalidade Do Paradigma Da Pesquisa). Por isso, vou apenas abordar aspectos mais voltados a instrumentalização objetiva e material do processo de ensino e aprendizado.


Para se falar em oportunidade de aprender de fato, há que se falar nas condições para ensinar. Não vou me alongar mais, pois este ponto já é bastante conhecido de todos. Não se pode realizar uma ação, qualquer que seja sem as condições materiais apropriadas para tal. O mesmo é válido para o processo de ensino e aprendizagem.


E neste caso todas as pesquisas, e acima delas a própria realidade é gritante. Não haverá qualidade de ensino sem qualidade de docência. E a qualidade da docência passa em primeiro lugar pela urgente valorização salarial e social do professor. O salário do professor brasileiro é o 3º pior do mundo, o  primeiro ou segundo pior da América latina. – Há estudos que apontam ser o 1º pior do mundo. Governos não cumprem sequer a lei do piso salarial que é menos que dois salários mínimos. (ver pesquisa UNESCO/OIT – 2011 e matéria publicada no CNTE / JORNAL DO COMERCIO.  Dez/2011).


Ao lado disso, não haverá qualidade de ensino sem professores bem formados. Mudem os currículos escolares mil vezes, multipliquem a carga horária cem vezes, nada, nenhum ponto será acrescido na qualidade real da educação, se antes, a valorização salarial e social, significativas, do professor e, investimentos em sua formação, não forem feitos. Digo isso por um motivo obvio; é humanamente, tecnicamente, financeiramente, biologicamente e psicologicamente impossível melhorar significativamente os índices de qualidade da Educação, sem estas condições preliminares fundamentais para o docente desenvolver sua função. Não é que nós docentes não queiramos esta qualidade no ensino, queremos sim! Só é humanamente impossível nas condições de desvalorização, salarial, social e de formação em que vive o professor brasileiro.


Para concluir este passo. Poucas escolas públicas, da portaria até a sala de aula, passando pelos banheiros e sala dos professores, oferecem as condições materiais apropriadas para o ensino e aprendizado.  Na maioria das escolas as condições são impróprias, são adaptações, situações provisórias que se eternizam. No que se refere ao ambiente físico e recursos materiais da escola e sala de aula, as condições não favorecem a presença, a permanência, o ensino e aprendizado do aluno e a ação pedagógica do professor.


Quanto a oportunidade de aprender a pesquisa deveria perguntar: quais são as condições físicas da sala de aula para este aluno aprender? A iluminação é apropriada ao aprendizado? E quanto a ergonomia? As carteiras são cômodas e adequadas a idade e altura dos alunos? As dimensões da sala são apropriadas ao número de alunos? Ou, o número de alunos por sala é apropriado ao ensino? - Pesquisa da UNESCO/OIT (citada) aponta que o Brasil é o país com o  maior número de alunos por sala do mundo.Média de 45 alunos.


Há que se perguntar: e a acústica da sala de aula é conveniente à aprendizagem? A ventilação, o nível de ruído, são  apropriados ao aprendizado do aluno?- Em quase uma década na mesma escola nunca vi um técnico do governo medindo os decibéis e os lumens de uma sala de aula. Mas já vi engenheiros calculando aluno por M² para acondicioná-los em uma sala visivelmente pequena e inapropriada.  Cálculos estes, que foram transformados em lei para definir o mínimo de alunos em sala. (de 40 a 45 alunos no caso de MG ).


No que se refere aos recursos materiais tecnológicos para o ensino e aprendizagem, a pesquisa deveria perguntar: os equipamentos e recursos tecnológicos para uso do professor e alunos existem? São adequados? Estão disponíveis e acessíveis a todos? Há um sistema de cópias eficiente na Escola? Há lousa interativa, telas de projeção, eletrônica ou não, disponível, adequadas ou mesmo, há quadros em boas condições? Há auditório, sala de multimeios, laboratórios bem equipados, bibliotecas bem equipadas e adequadas com funcionários disponíveis e bem preparados? Há computadores e softwares pedagógicos e de pesquisa apropriados, atuais , disponíveis e suficientes aos alunos e professores? Há treinamento para os professores manusearem as novas ferramentas? Existem equipamentos apropriados e acompanhamento nutricional para a prática de esportes em Educação Física na escola? Há equipamentos de primeiros socorros e treinamento aos funcionários para casos de emergência?  Há materiais pedagógicos próprios de cada conteúdo para uso em sala? Isso para ficar só nas questões objetivas materiais do ensino e aprendizado. A resposta é conhecida de todos!


O fato é que ou o professor compra com seu próprio salário equipamentos, insumos como de informática e materiais de que precisa para dar uma aula melhor, mais atraente e de qualidade ou fica no tradicional copiar no quadro. Em média o professor mais interessado gasta de 20% a 30% por mês do seu baixo salário, por conta própria, com equipamentos e materiais bibliográficos que deveriam ser fornecidos pelo Estado, como jornais, revistas, livros de apoio, filmes, apostilas, jogos pedagógicos, papel, cartuchos de impressora, cópias para fins de aula.


4º passo: Condição de continuidade da aprendizagem ou garantias ao aluno para realização dos estudos pós  aulas e Ensino Médio.


Para se levantar qualquer avaliação sobre a identidade do Ensino Médio, antes, há que se perguntar:  quais são as expectativas reais oferecidas aos jovens egressos deste nível da Educação? Que perspectivas se oferecem a eles com a formação alcançada pelos Estudos? Que motivações e incentivos tem estes jovens após o Ensino Médio? 

Ora! Aqui entra a responsabilidade social do empresariado, mais que isso, aqui se exige de cada empresário um sentido de solidariedade social.

Facilmente se cria em todo país uma expectativa positiva para que o aluno entre, permaneça e conclua os estudos. Basta um pacto social pró Ensino médio. O governo entra com incentivos de cortes de impostos, as Escolas com o sistema de gestão e controle democrático  e o empresariado entra com cotas de oportunidade de trabalho para os jovens. Como seria isso?



Ficaria estabelecido por contrato de solidariedade social um pacto educacional entre as partes. O governo atenderia as condições materiais necessárias, abastecendo as escolas com material pedagógico adequado, de qualidade, inovador e em quantidade suficiente. Além disso, baixaria impostos das empresas que “apadrinhassem” escolas públicas e as ajudassem com investimentos na infraestrutura física, de equipamentos, novas tecnologias de processos e gestão, sem tirar a autonomia das Escolas.
As Empresas e órgãos públicos, de diversas áreas governamentais,  reservariam vagas de trabalho aos alunos que cumprissem algumas exigências, tais como (freqüência, rendimento e comportamento). Estes alunos já sairiam do ensino Médio com vagas garantidas de emprego onde dividiriam seu tempo entre o aprendizado profissional na própria empresa e em cursos complementares de qualificação profissional pós Ensino Médio, que poderia ser o PRONATEC do governo federal ou mesmo no sistema “S”, por um preço razoável que ele (aluno) poderia pagar com o salário do primeiro emprego alcançado pelo programa. - É inverter o processo atual; os alunos saem do Ensino Médio com a certeza da vaga de emprego e é obrigado a fazer o PRONATEC para continuar empregado.


Deste modo o aluno teria oportunidades reais e ao seu alcance, valorizadas pelo Ensino Médio e complementadas pelo ensino de qualificação profissional, assumidos pelas empresas com o apoio do governo e das escolas. Aí sim, haveria um incentivo forte para o aluno cursar o Ensino Médio, tanto para aqueles que visam uma carreira técnica-profissional, quanto aos que visam uma carreira acadêmica ou que dependam de curso superior como já são incentivados pelo PROUNI. Não se trata de “tecnificar” o ensino médio, mas de propiciar que ele cumpra seu objetivo de formação mais humana e de cidadania com apoio do governo e empresariado.


Sem medidas desta natureza e com os dados de realidade apresentados neste artigo, como podem dizer que oportunidade de aprender se limita a presença do aluno em sala? E que essa oportunidade está relacionada com a quantidade de hora/aula dada? Como podem insinuar que se o aluno não está aprendendo a culpa é do professor, dos métodos ou da quantidade de aulas? Como podem culpabilizar a Escola e os professores pelo baixo rendimento e evasão do aluno? Quando as condições objetivas materiais não são dadas? Desconsiderar estas realidades é uma completa miopia do processo educacional real.


Para concluir esta terceira parte da análise da pesquisa, afirmo: a pesquisa considerou até aqui, como o todo da oportunidade de aprender, apenas a presença do aluno. Desconsideraram as condições antecedentes, as justapostas e as subseqüentes à presença, como vimos. Levados pela situação necessária da presença esqueceram as condições de suficiência, que no conjunto, compõem toda a cadeia da oportunidade de aprender de fato. Feriram princípios básicos da lógica como, a suficiencia das premissas usadas. A pesquisa não estabeleceu as condições e fundamentos necessários para sustentar as premissas, incorrendo numa demonstração de elementos que não coincidem com a realidade. 


Em certa medida, a julgar pelo seminário e detalhes da pesquisa, se preocuparam em procurar um culpado pelo baixo rendimento do aluno, quando deveriam se concentrar nas causas, conseqüências e soluções.


Mas, antes de imputar ao professor e a escola qualquer responsabilidade sobre o rendimento do aluno ou crise de identidade do ensino médio, todos os elementos aqui citados, de responsabilidade do governo, do empresariado, e mais a questão de valorização do professor, devem estar atendidos, e só, somente depois disso, se, a qualidade do ensino não for suficiente, é que podem apontar o dedo para o professor e responsabilizá-lo por algum resultado negativo. Antes disso é leviandade, ignorância sobre o processo educacional ou manobra ideológica! Contra um profissional que normalmente se nutre de um sentido nobre de solidariedade social e humana, não de modo messiânico, como querem alguns, mas por nutrir-se de um idealismo-humanista inexplicável.

                                     Westerley Santos – Professor/Filósofo /Mar 2012.

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NOTAS:
1) Na quarta e ultima parte deste exame, pontuarei os equívocos do vetor “oportunidade de aprender” - foco no professor, a concepção Taylorista de tempo no ensino  adotada pela pesquisa, e por fim, tentarei demonstrar por que a pesquisa não é um instrumento válido para  aferir a situação do  E.M. brasileiro.

2) Quanto as condições subjetivas ao aprendizado como: o ambiente moral, ético, psicológico, organizacional, democrático e de convivência pacifica na escola, sofrem de toda sorte, de apoio forte e sistematizado das autoridades.  Diretores, Supervisores, funcionários e todos os entes do processo educacional, atuam cotidianamente como se entendessem de modo inato, que as condições subjetivas, são um trabalho de todos, por todos os dias. E mesmo sem recursos e até sem o preparo necessário, tentam por iniciativa própria e dever mais ético e moral que profissional, estabelecer na escola as condições subjetivas ao aprendizado do aluno.

Estas condições são tão fundamentais à oportunidade de aprender que deveriam receber atenção especial das autoridades. É muito difícil descrever uma condição subjetiva sem atrelá-la a outra objetiva, mas, como exemplo, cito algumas:

A -Apoio psicológico:   cada escola deveria contar com um centro psicopedagogico de atendimento e acompanhamento ao aluno. Bem-estar, saúde e nutrição: cada escola deveria contar com atendimento clínico, nutricional e odontológico periódicos ao aluno. Orientação vocacional: cada escola deveria contar com serviços de atendimento e orientação profissional e de carreira para o jovem estudante em fase de vestibular. Convívio social: é preciso rever o conceito que a escola e Gestores escolares tem por exemplo, sobre o intervalo. Este espaço/tempo é pedagógico, de convivência, socialização e aprendizado cultural, entre os alunos e destes com os professores em meio escolar. No entanto, o intervalo é de apenas 15 minutos, mal dá para o aluno ir ao banheiro, lanchar e se relacionar com o seu grupo.

B - Espaço de convivência na escola: é preciso entender que a fase juvenil e adolescente se desenvolve tipicamente pelo encontro e construção de grupos de convivência e relacionamento, para isso é preciso criar espaços bem montados de convivência social para os alunos na escola: (arenas, anfiteatros, quadras decentes, palcos, praças de convivência e de alimentação).


C - Além destas, do ponto de vista político-social, a Escola deveria ser vista pelas autoridades como uma célula receptora e dinamizadora de políticas públicas de integração social e cultural, e receber por isso, apoio pedagógico, técnico e gerencial, por meio de programas governamentais de parcerias permanentes que promovessem a aproximação e intercambio do núcleo escola com: pais/escolas, comunidade/escola, Universidade/escola, centros culturais/escola, secretarias e órgão de tecnologia/escola, secretaria e órgão de pesquisa e gestão/escola.


Esta política de integração e apoio sócio-pedagogico-cultural, tecnológico e de gestão, entre os diversos órgãos do ente federativo e a escola, são possivelmente exeqüíveis. Basta usar a estrutura orgânica já existente de cada nível de governo para estabelecer convênios destes órgãos com a escola.


Mas para isso, é preciso que os governantes enxerguem a escola não como um espaço onde se deposita e disciplina crianças e adolescentes, cercados por muros, e sim, como um centro de efervescência educacional, social, cultural, artística, esportiva, de conhecimento e convivência. Isto é dar qualidade a escola e torná-la atraente e funcional. Se cumprissem de fato os (Artigos 205 a 214) da Constituição Federal, já se faria muito pela educação.


Há muito, estamos alertando: ou a sociedade, os governos e a própria Escola pública criam as condições subjetivas apropriadas para sua sustentação como pilar de civilização social e efervescência cultural e de conhecimento ou será sucumbida pelo processo incivilizatório da sociedade tecnicista.


A escola está nos seus últimos fôlegos de resistência aos ataques da violência e do descaso das autoridades.  A começar pelo processo de miserabilidade do professorado que vem os expulsado de sala de aula. Tão grave quanto a evasão de alunos, será a evasão de professores, que já começou!  Os motivos são conhecidos de todos. ( ver texto internet “ Os 5 tipos de desvalorização Do professor).

--was---

Olavo de Carvalho

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Sergio Cortella

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