terça-feira, 10 de julho de 2012

FILOSOFIA E OBJETIVIDADE

 

FILOSOFIA  E OBJETIVIDADE

Há tempos a questão da objetividade na filosofia aparece nos encontros, seminários e debates acadêmicos ou mesmo nas discussões em sala de aula. É uma questão, ou melhor, uma inquietação que parece perseguir a Filosofia desde sempre, ainda que na esteira ou na sombra de outras perguntas de mesma natureza como: para que serve a filosofia? Qual sua finalidade e utilidade?

Bem! Em um seminário na academia, após ter sugerido em uma fala descontraída, que a Filosofia e, portanto, os filósofos e estudantes carregam em si um aspecto blasé característico, fui prontamente refutado por um participante que defendeu imperativamente a objetividade na Filosofia, entendendo, talvez, que eu teria dito algo neste sentido.  Como o tema do encontro não passava por esta questão, achei melhor não abrir a discussão, mas o participante foi embora com a idéia de que a filosofia é objetiva.

Em tempo, é preciso desfazer este equívoco principalmente aos jovens estudantes, futuros professores. A filosofia não é e nem deve ser objetiva, com pena de se negar a si mesma negando sua própria natureza. 

A objetividade é uma qualidade daquilo que é objetivo, e este conceito diz respeito ao objeto, que é aquilo que se refere ao mundo exterior, que existe fora do espírito humano e independentemente do conhecimento que dele possua o sujeito pensante. Portanto, objetividade e objetivo são o que se refere aos objetos exteriores ao homem, que estão ou fazem parte do mundo exterior. E que mundo é este dos objetos? É tudo aquilo que não é do interior do homem. E sim do mundo posto, da realidade da natureza, da materialidade exterior da physis.

Desde Sócrates e novamente na modernidade que o estudo particular deste mundo dos objetos não pertence à área de prioridade da Filosofia, pertence sim, as Ciências.  Os objetos da natureza são matéria de investigação e estudo próprios das ciências naturais e em parte das Biológicas, com a ajuda da Matemática. Alias, foi nesta intenção de se dedicar a este mundo objetivo das coisas da natureza que as Ciências modernas surgiram e se desgarraram do tronco da filosofia. A Química, a Física e a Biologia, por exemplo, se preocupam, no conjunto, com os elementos formadores da natureza, com os fenômenos físicos e biológicos desta natureza.

Por se ocuparem dos objetos da physis (entes da natureza) as Ciências puderam desenvolver um método também objetivo e técnico para compreender estes entes, o que se tornou elemento de distinção entre Filosofia e Ciência. O método experimental, quantitativo, que entre outras técnicas, trabalha com a mensuração do objeto pesquisado como peso, tamanho, textura, temperatura, datação etc. São métodos objetivos, da objetividade (aquilo que proveio do objeto) é uma prerrogativa das Ciências e deve ser, pois, se esta se distanciar do objeto externo que está na natureza e se aproximar dos elementos e atributos internos do homem, A Ciência corre o risco de se tornar Filosofia, Religião ou Arte. Ela perde seu scopo de pesquisa do mundo físico e se torna uma metafísica. A Ciência tomou para si a responsabilidade pela descoberta de como este mundo externo ao homem, funciona. Por isso mesmo não se confunde com a Filosofia e não pode entrar no universo das subjetividades humanas, não deve se tornar subjetiva, caso contrário deixa de ser Ciência, no sentido moderno.
                                                                                                               
Pela comparação entre a finalidade primeira da Filosofia e da Ciência pode se deduzir que à Filosofia não cabe a objetividade do mundo das coisas e sim, a subjetividade do mundo do homem. Aliás, esta foi a principal contribuição de Sócrates, quando trouxe a Filosofia dos Céus para Terra, propondo uma Antropologia a partir da máxima “Conheça-ti a te mesmo” definindo aí, a subjetividade humana como área prioritária da investigação Filosófica.

Mas o que é a subjetividade? É aquilo que se opõem à objetividade. O subjetivo é antônimo ao objetivo. A subjetividade é o que pertencente ou é relativo ao sujeito. Que está somente no sujeito, no eu; que se passa ou existe no espírito.  Diz-se de uma ação oriunda do espírito e da razão, portanto do sujeito, não está e nem se origina do objeto, é propriedade inerente do ser. Neste sentido, como ponto de partida, aprioristicamente, está nesta concepção um princípio metafísico e não físico como os entes da natureza.  Subjetividade é um campo onde habitam os “entes de espírito humano” como: as paixões, os sentimentos, as tormentas, as angustias, o pensamento, as reflexões, as críticas, os juízos, os valores, a moral, em fim, as vicissitudes, virtudes e idiossincrasias puramente humanas, seria, portanto, o campo próprio de investigação da Filosofia e não das Ciências da physis.

Por se ocupar das subjetividades humanas que são holísticas, complexas e múltiplas, a Filosofia não tem um método apenas e não utiliza de experimentações quantitativo-matemáticas, a Filosofia não se prende a mensurações, não pesa, não calcula, não mede a temperatura a umidade ou viscosidade das vicissitudes humanas, ela investiga pela razão, é uma ação cognoscente de observação, problematização, analisa, reflexão, avaliação e julgamento que se reverbera, especula racionalmente os atributos do sujeito e suas relações consigo mesmo e com o outro no mundo histórico, cultural e valorativo. Por isso mesmo é um exercício de subjetividade e não de objetividade.

Ao contrario das Ciências a Filosofia não faz experimentos faz avaliações e crítica. Portanto não se detém ao objeto e sua objetividade, mas sim ao sujeito e sua subjetividade. E assim deve ser caso contrário toda a metafísica, ontologia, axiologia e mesmo a epistemologia se tornariam ciências, no sentido moderno do termo.

E aos que imaginam que ao menos os resultados das investigações filosóficas são ou deveriam ser objetivos (agora no sentido do senso comum), digo que nem nestes casos a filosofia pode ou deveria ser objetiva. A objetividade nas apresentações da expressão do pensamento sempre me pareceu um modo de censura e de imposição do tempo mecânico sobre o tempo da reflexão. Não! Não existe objetividade de expressão em filosofia, a objetividade não é atributo da linguagem humana, do mesmo modo não é própria da linguagem filosófica que tem por método o valor de verdade já na raiz mesma dos termos e conceitos, o que de entrada exige da reflexão filosófica, uma pesquisa semântica e lógica demorada e longa no uso dos termos. A objetividade coaduna com o pensamento descritivo não com o pensamento crítico, este é dialético, movimenta-se em uma espiral sem fim, em um vai e vem progressivo e ascendente necessário à sua própria construção.

O pensamento crítico expresso em palavras ou não, é demorado e paciente. O máximo de “objetividade” que se pode esperar da expressão do pensamento filosófico é a síntese do raciocínio, que também para ser o mais “objetivo” dependerá da reflexão demorada, própria do pensamento dialético do qual a síntese proveio. Então, mesmo a síntese não pode ser objetiva (no sentido do sendo comum). Quando o pensamento complexo se encontra com a objetividade das palavras, não se configura aí uma objetividade da expressão filosófica ou literária, como se pensa. Configura-se sim, uma arte, a arte da poieses, o que não é nem expressão da filosofia nem da literatura, mas um terceiro elemento que é a síntese delas configura-se a arte da poética.

Por tudo, nem pelo scopo da Ciência, nem pelo telos da Filosofia, nem pelo método ou pelo pensamento e expressão, a Filosofia não se refere ao objeto, logo não pode ser objetiva, não é de sua natureza ontológica, não é de sua práxis dialógica, ainda que toda racionalidade instrumental moderna tente torná-la tecnicamente objetiva.

Westerley Santos – Prof/Filósofo – Br.
Julho/2012

7 comentários:

  1. Oi, sou a Vanessa, tenho um site de um filosofo para te indicar: www.verlaine.pro.br o senhor tem textos inteligentes...interessante...sou a professora de aula particular da Marilene , segundo ano a noite.

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  2. Olá Vanessa, muito obrigado. Pode dispensar o"Sr". Em breve será um site muito mais interessante. Valeu!! Vou ver o site indicado. ok?
    Abraço!

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  3. Na verdade não é difícil é sim pouco estudada para valer!!!!

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  4. Por que a filosofia obedece aos critérios as subjetividade e não do relativismo?

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    Respostas
    1. Por que a objetividade é uma dificuldade das ciências humanas ???

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  5. Olá Jaqueline! Agradeço por visitar meu blog.
    Não entendi a relação exata da sua questão com o texto, por isso respondo em geral. ok?
    A objetividade é uma dificuldade para as Ciências Humanas devido a própria natureza SUBJETIVA da Humanas, ou seja: as Humanas não tem um método seguro, matemático, indubitável como existe nas Ciências da Natureza. Os métodos da Humanas são sempre valorativas, interpretativos, críticos, influenciados pela cultura, valores, Moral etc...Por isso fortemente influenciado pela SUBJETIVIDADE.

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