quinta-feira, 7 de junho de 2012

QUEM ESTÁ ENGANANDO QUEM?




QUEM ESTÁ ENGANANDO QUEM?

Nos últimos meses a mídia paga, principalmente a televisiva, vem intensificando, e porque não dizer, bombardeando o povo mineiro com propagandas oficiais eleitoreiras ufanistas ou pelo menos fantasiosas, sobre a melhoria da educação neste Estado. O slogan é “Minas vai bem, quando os mineiros vão bem”

Obviamente trata-se de mais uma estratégia de Marketing cara e burra – aliás, em política estatal estes dois termos costumam ser sinônimos. Cara, porque são gastos em Minas cerca de R$ 159, 786 milhões em média por ano com publicidade governamental. No período de 2003 a 2010, as despesas de publicidade do Governo de Minas Gerais atingiram, em valores constantes, a cifra de R$ 1.278,28 ou US$ 767, 742 milhões de acordo com o relatório do TCE-MG (www.tce-mg.gov.br)¹ pagas com o dinheiro dos contribuintes.

Burra, porque tenta negar os fatos a quem os sente na pele, ou melhor, em casa mesmo. Ou os alunos não são filhos e netos daqueles que estão ouvindo e vendo estas propagandas? Basta perguntar a eles como vai à educação em suas escolas.

A realidade indisfarçável é que a educação vai de mal a pior em Minas e no Brasil e, não adianta tentar camuflar este fato com propagandas e musiquinhas de apelo emocional, pois, é o mesmo que maquiar uma ferida aberta e dizer ao ferido em dores, que a ferida não existe e que seus  gritos são de prazer e louvor.

Ora! Este tipo de manipulação midiática com uso de depoimentos de crianças, adolescentes e velhinhos simpáticos é uma estratégia de marketing político com base na neurociência que visa infantilizar o espectador para que ele não acione seu dispositivo crítico-reflexivo sobre a informação que está recebendo, priorizando mentalmente os aspectos emocionais em detrimento ao reflexivo. O Filósofo Estadosunidense, Noam Cromsk já alertou quanto às estratégias de manipulação da mídia. As estratégias 5 e 6 elencadas por ele e desenvolvidas em seu texto “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”, explicam bem a que me refiro:

 5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
 A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras
tranqüilas”).

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curtocircuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos

Outra forma muito usada de enganar o povo é apresentar dados e números sem apresentar a análise de contexto, a comparação com os fatos de realidade, e sem associá-los a situação global e muito menos aos dados negativos da mesma pesquisa. Por exemplo, uma das propagandas veiculadas diz que todas as crianças com até oito anos em Minas estão alfabetizadas, e informa um número, (88.9%) mesmo sem dizer a que se refere este número. Mas não dizem o que entendem por alfabetização e muito menos quantos alunos já nas séries superiores não sabem ler, escrever e interpretar um parágrafo de um texto simples. Também não inserem estes dados à realidade geral do país.

De acordo com os dados do Censo 2010 divulgados pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística , a taxa  de analfabetismo[2]  no Brasil chega a 9% (cerca de 14,6 milhões) de analfabetos. Na classificação por Estados, os que apresentam os menores índices de analfabetos  (inferior a 5% da população) são: o Distrito Federal (3,25%), Santa Catarina (3,86%), Rio de Janeiro  (4,09%), São Paulo (4,09%) e o Rio Grande do Sul (4,24%), Minas Gerais aparece em 10º lugar com (7,66) de analfabetismo.

Quem está enganado quem? Com os dados do IBGE podemos entender que em Minas, mostra-se o lado bom da maçã escondendo o lado podre. – Aliás, o professor anda tão desprestigiado e desvalorizado que há muito não ganha sequer uma maçã do aluno. Ocorre que não estamos falando de maçãs, estamos falando da Educação de um povo.

Mas, para não se deixar enganar, convido o leitor a fazer o teste da realidade, usando o Marketing popular e barato do boca a boca. Pergunte ao seu filho, neto, ou a um vizinho professor, pedagogo ou Diretor de escola pública estadual do seu bairro, a quantas andam a educação? Pergunte se há laboratórios de ciências, quadras, bibliotecas bem montadas, salas de multimeios, pergunte se há espaços de convivência e atividades artísticas e culturais patrocinadas pelo governo, pergunte sobre as condições do mobiliário, das salas de aula, ventilação, iluminação, quadros e em que condições estão, caso haja. – Mas, para não constranger o professor entrevistado, não precisa perguntar sobre o seu salário!

Compare as respostas de sua investigação de realidade com as propagandas oficiais e tire você mesmo suas conclusões.

O fato é que não existe qualidade sem condições para tal. Portanto, não existirá qualidade em educação sem antes atender as condições objetivas, necessárias e urgentes como piso salarial dos professores conforme a lei, melhorias e modernização dos prédios escolares, equipamentos e materiais pedagógicos e mudanças na organização dos tempos, espaços e metodologias de gestão, ensino e aprendizagem.

Sem estas medidas a qualidade na educação continuará sendo apenas um slogan publicitário para fins eleitoreiros, enquanto o povo e o país continuam na mais profunda carência educacional e sofrendo por isso mesmo, as conseqüências e mazelas de ser um dos países com maior índice de homicídio e distribuição de drogas do mundo, enquanto em educação figuramos entre os últimos lugares nos rankings mundiais. Os governantes sabem disso? Claro que sim! Então quem está enganando quem?

Por: Filósofo/Prof. Westerley Santos.
07/06/2012 BH-MG-Br

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¹ Ver dados completos em: http://www.tce-mg.gov.br/ e  http://www.novojornal.com/editorial/noticia/editorial-i-estara-correto-18-11-2011.html
² Ver mapa e lista dos estados  do brasil por analfabetismo:
www.inep.gov.br/estatisticas/analfabetismo
http://www.publicacoes.inep.gov.br/arquivos-MAPADOANALFABETISMONOBRASIL.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_estados_do_Brasil_por_analfabetismo

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