terça-feira, 10 de março de 2015

DAS DESVANTAGENS DO LIVRO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE FILOSOFIA:


 
DAS DESVANTAGENS DO LIVRO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE FILOSOFIA:

a atualidade do pensamento de Nietzsche

Nos escritos de juventude, como a II Consideração intempestiva – Da utilidade e desvantagem da história para a vida; III Consideração intempestiva – Schopenhauer educador e Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino, estão presentes as críticas de Nietzsche à educação de seu tempo.
Nesses escritos, o filósofo mostra-se preocupado com a cultura de sua época, com a supervalorização da história, com a formação para o mercado de trabalho, a cultura jornalística, etc. Esses e outros fatores, segundo Nietzsche, fizeram com que a cultura não agisse em favor da vida, que o conhecimento se tornasse apenas algo no interior de quem o possui, sem ação prática.
Essa preocupação com a cultura moderna, ou com a falta dela, fez com que Nietzsche pensasse a formação de sua época, e, consequentemente, a educação de seu tempo. As críticas de Nietzsche à superficialidade educacional de seu tempo, já estão preconizadas na obra Sobre a filosofia universitária, de seu “mestre” Schopenhauer. Nesta, duras críticas são feitas ao ensino estatal de filosofia: “pode ser uma coisa muito útil, desde que sirva para adequar melhor os estudantes aos fins do Estado, como também firmar na fé o público leitor; mas vender isto por filosofia é o mesmo que vender uma coisa por aquilo que ela não é” (2001, p. 86).

-Na esteira do pensamento schopenhaueriano, Nietzsche se ocupa em tecer críticas aos estabelecimentos de ensino de seu tempo, alertando para o fato de que estes não podem formar indivíduos para a verdadeira cultura, para o pensamento. Isto porque, essas instituições estão a serviço de alguns interesses, como os comerciais, estatais, ou os de uma falsa bela forma. Servindo a esses interesses, a educação passa a ter um caráter utilitário, de formação para o mercado de trabalho, para a obediência ou para a formação rápida de pseudo-cultos, os eruditos, uma geração que Schopenhauer define como “completamente paralisada no espírito, tornada incapaz para todo o pensar” (2001,p. 58),
Pensando em nosso tempo, em nossas atuais condições de ensino, se temos como objetivo potencializar o ensino contra a mera formação utilitária para o mercado de trabalho ou para a obediência se queremos um ensino para o pensamento e para a cultura, mesmo dentro de instituições escolares atreladas aos interesses do Estado, se a sala de aula pode ser um lugar de exercício da resistência e da liberdade, apesar dos sistemas de controle que estão sempre à espreita, devemos pensar em como fazer para que nossas aulas de filosofia se comprometam com a criação de novas formas de vida, com o exercício criativo do pensamento e com a formação cultural dos estudantes.
Se, para Nietzsche, o ginásio, ou o nosso ensino médio, deve ter como principal objetivo o ensino da língua materna, o aprender a ler e escrever artisticamente, em contraposição à escrita técnica dos especialistas e jornalistas, acreditamos que o ensino de filosofia tem um papel fundamental nessa empreitada. Este seria um espaço em potencial para a leitura dos clássicos linha por linha, o que faz com que problematizemos a adoção de livros didáticos na aula de filosofia, esses materiais que “facilitam” o acesso dos estudantes aos clássicos.
Partindo da ideia nietzschiana de exame rigoroso dos clássicos e de “tratar o vivo como vivo”, acreditamos ser um tanto quanto problemática a adoção dos livros didáticos como textos centrais nas aulas de filosofia. Os livros didáticos de filosofia, em geral, apresentam de forma enciclopédica o pensamento dos filósofos, de uma maneira rápida, que Nietzsche chamaria de jornalística. Nos livros didáticos não estão presentes o pensamento do filósofo, mas interpretações simplificadoras com vistas a ser absorvido de forma rápida pelo estudante, para que ele possa se munir do conhecimento necessário que o habilite a ter acesso ao mercado de trabalho. Assim, o livro didático se assemelha à forma em que Nietzsche via o jornal em seu tempo, como algo que “substitui a cultura” (2007, p. 65), que toma o lugar do gênio para passar informações rápidas e momentâneas.
Em um livro didático não está presente o pensamento do filósofo, o porquê de este filosofar, as suas inquietações, as suas angústias, mas uma redução deste pensamento apresentado apenas em forma de resultados. Desse modo, o saber se torna apenas mais um conhecimento a ser interiorizado e reproduzido pelo estudante. Não há aí um movimento do pensamento, um filosofar.
Em suma, o que pretendemos com o ensino de filosofia está muito próximo do que propõem Gallo e Kohan (2000, p. 195): “que todo jovem, ao ter contato com a filosofia, possa desenvolver experiências de pensamento, aprendendo a reconhecer e a produzir, em seu nível, conceitos, a fazer a experiência da crítica e da realidade sobre a sua própria vida, a desenvolver uma atitude dialógica frente ao outro e ao mundo e, fundamentalmente, possa aprender uma atitude interrogativa frente ao mundo e a si mesmo”.

Autores:
Eduardo Ferraz FRANCO, Carmelita Brito de Freitas FELÍCIO
Faculdade de Filosofia - Universidade Federal de Goias
eferrazfranco@hotmail.com; carmelaf@terra.com. br
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Notas:
Nos escritos de juventude, como a II Consideração intempestiva – Da utilidade e desvantagem da história para a vida; III Consideração intempestiva – Schopenhauer educador e Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino, estão presentes as críticas de Nietzsche à educação de seu tempo.
Referências bibliográficas
GALLO, Silvio; KOHAN, Walter Omar. Crítica de alguns lugares-comuns ao se
pensar a filosofia no ensino médio. In: GALLO, S; KOHAN, W.O. (Orgs.). Filosofia
no ensino médio. Petrópolis: Vozes, 2000.
NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre educação. Rio de Janeiro: Edições Loyola,
2007;
________. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da
história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a filosofia universitária. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
Fonte de financiamento: CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior / Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma Leitura Crítica Sobre O Instrumento Prova Para O Ensino De Filosofia. (parte II)

Uma Leitura Crítica Sobre O Instrumento Prova Para O Ensino De Filosofia. (parte II)

Westerley A.Santos- Prof. Filósofo. Ago/2003



No caso da Filosofia e talvez das Artes e a Educação Física, por mais que não se admita, ao se utilizar a Prova como elemento de avaliação do aprendizado, acaba-se avaliando não o aprendizado mesmo, mas sim o próprio objeto prova. Isso porque, não são considerados, nesse tipo de avaliação, aspectos mais humanos da formação do sujeito, da pessoa do aluno, que são objetivos naturais do ensino da Filosofia e de outras disciplinas como as citadas. Por exemplo: na prova (tradicional) não se avalia ou considera o momento psicológico em que o aluno se encontra; sua situação emocional, conflitos e problemas vividos, condições de saúde, condições econômicas, alimentares, para realizar a prova.   São elementos que interferem diretamente no resultado deste tipo de avaliação e que muitas vezes, demonstram não uma deficiência do conhecimento do aluno, mas sim, uma dificuldade nas condições deste para realizar a prova.

Há estudos de que 20% dos nossos alunos, possivelmente sofrem de Dislexia  que é causa ainda ignorada de evasão escolar em nosso país. E uma das causas do chamado "analfabetismo funcional" que, por permanecer envolta no desconhecimento, na desinformação ou na informação imprecisa, não é considerada como desencadeante de insucessos no aprendizado. O mesmo ocorre com a Discalculia. Assim, a avaliação pelo instrumento prova não consegue detectar situações como estas, pois, não atinge a avaliação da aprendizagem mais profunda, e não completa o sentido diagnóstico que deveria atender nestes casos.

Outro aspecto é o da relação ensino-aprendizagem. Na prova como instrumento tradicional, não há espaço ou pelo menos a prática da crítica do aluno e nem para a autocrítica do Professor. Isso porque, nesse método na prática, não há troca. Não é uma relação direta, professor/aluno. Trata-se de uma relação indireta, unilateral, mediada pelo instrumento. Portanto, aspectos importantes e fundamentais para os sujeitos do processo de ensino/aprendizagem são desconsiderados na avaliação pela Prova. Usualmente as provas são de múltipla escolha ou de relação de ideias semelhantes ou contrárias, não havendo um retorno descrito, analisado, argumentado, debatido com o aluno. Na verdade, há na prática, uma confusão sobre o que é  avaliação. O que se prática mesmo, são testes, e testes não são avaliações; são elementos de classificações ou seleção.

Esse fato torna esse tipo de “avaliação” injusto e irrelevante, pois há neste instrumento um vício de origem, chegando até a se tornar um instrumento de opressão, pois, não avalia de fato o conhecimento do aluno, quando muito, avalia sua memória. Ao mesmo tempo em que é para o Professor, um atestado assinado pelo aluno de que ele é o único responsável pelo nível de sua aprendizagem ou falta dela, já que a prova é uma posição unilateral.

O professor, muitas vezes se escuda por trás das questões dadas na prova, deixando toda a responsabilidade do aprendizado na resposta dada pelo aluno, já que não há discussão, debate, interação sobre o processo avaliativo, neste tipo de instrumento; no lugar disso, há um gabarito para correção de respostas irrefletidas e estáticas para fins de nota. A relação é técnica-instrumental e bancária.

A Filosofia retornou ao ensino médio justamente para fazer o contraponto à lógica do ensino puramente técnico-instrumental e bancário, conscientemente ou não, é de sua natureza a crítica deste sistema que visa somente os fins, no caso a nota, quando deveria se ater aos meios, ao processo de aprendizagem.

É princípio pedagógico da Filosofia a construção conjunta do saber, na relação direta entre sujeitos, no debate com o aluno, uma prática intersubjetiva entre ensino e aprendizagem, inclusive no momento e no modo de avaliação. A Filosofia não detém o conhecimento, e por isso, ela não pode aferi-lo em provas e instrumentos técnicos, ela é busca do saber e deve construí-lo em conjunto com o aluno. Logo: ela não avalia quantidades, técnicas, respostas prontas, procedimentos e fórmulas, “V” ou “F”, ela avalia, com outros métodos; lógicos, analíticos, conceituais, argumentativos, problematizadores que orientam os juízos de valor, faz a reflexão crítica, radical e de conjunto sobre a realidade. O que não se verifica por Provas tradicionais.

O aprendizado filosófico se auto-avalia no mesmo instante em que acontece. O papel do professor é orientar o aluno quanto ao perigo dos juízos que geram preconceitos, discriminação, racismo, alienação, violência, sustenta a ideologia que esconde as desigualdades, alimentam o ceticismo ou o dogmatismo, entre outras.

Por fim, a Filosofia pretende o desenvolvimento da autonomia intelectual do aluno, da formação do ser ético; consciente de si, do outro, do mundo e do transcendente para que esse Ser tome uma posição diante da realidade do mundo em que vive. E para isso, não há instrumentos estáticos e técnicos que avaliem, há sim, caminhos que podem ou não levar ao despertar da consciência. E, é nesse sentido que o ensino da Filosofia deve caminhar, caso queira ser verdadeiro.

Ainda assim, alguns dizem que a nossa sociedade e sistema educacional exigem provas e avaliações. Há vestibulares, concursos, e os alunos devem se preparar para essa realidade. Eu digo que as provas não preparam ninguém para estes fins, ainda que tentem, pois, não é a prova em si, que faz o aluno passar em um vestibular ou concurso, é sim, o conhecimento, o discernimento, o raciocínio analítico, dialético, lógico a capacidade argumentativa, de leitura, interpretação e escrita, a capacidade de discernir, comparar, julgar e concluir de modo crítico o conteúdo. É o seu desenvolvimento cognitivo que lhe dá as condições necessárias para enfrentar as diversas realidades humanas e sociais, justamente o que a Filosofia, mas não só ela,  busca desenvolver, e que instrumentos como a Prova não fazem, e ainda escondem a realidade do conhecimento do
 aluno atrás de um modelo de memorização.

 Se a prova fosse exercício para fins de concursos como vestibulares, todos os alunos passariam, pois estes fazem prova desde o primeiro dia de sua vida escolar.

Outros ainda poderiam pensar: mas então como avaliar sem prova?  Eu digo que há inúmeros métodos de avaliação melhores e mais significativos que a Prova, como, por exemplo: O debate em sala, em que o aluno expressa seu pensamento e entendimento do conteúdo estudado, a leitura interpretativa e associação entre textos como (filmes, jornais, revistas especializadas) em que o aluno desenvolve o poder de crítica e conseqüente absorção do conteúdo, há pesquisas e apresentações sobre estudos de casos, discussão da matéria a partir de notícias, de TV, de Teses,  teorias de pensadores e cientistas da área afim, entrevistas, questionário, discussão em grupo, resenhas, relatórios, apresentação de trabalhos, seminários e uma infinidade de processos avaliativos melhores e mais adequados e interessantes que a Prova tradicional.

Na área das Ciências, por exemplo, pode-se fazer o mesmo, a partir da História de cada Ciência como a História da Matemática que é belíssima. A avaliação do conhecimento nas Ciências exige meios mais práticos e experimentais e não de perguntas e respostas. Este deveria ser apenas o momento das anotações e relatórios do aprendizado para discussão e checagem e não a avaliação final do conhecimento. Ocorre que todos os outros métodos são mais trabalhosos que a Prova e exigem mais tempo de preparação, estudo e pesquisa por parte do Professor.

Por fim, todos estes exemplos, põem o aluno e o Professor, juntos, diante do problema do conhecimento. E é aí que se dá a troca. Aí sim, o conhecimento adquirido, a evolução, dificuldades, problemas e soluções aparecem em uma relação de troca constante. São vários os modos de avaliação, cada qual deve ser adequada ao propósito da disciplina, não compreender essa adequação ou tentar padronizar um método apenas. Pode como ocorre, corromper o ensino e aprendizagem.

E aos que pensam que outros métodos não se aplicam à sua disciplina digo que,  se não for possível avaliar o aprendizado de uma disciplina pelo método direto entre professor /aluno, também não é possível ensinar tal disciplina.

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1) Dislexia é uma específica dificuldade de aprendizado da Linguagem: em Leitura, Soletração, Escrita, em Linguagem Expressiva ou Receptiva, em Razão e Cálculo Matemáticos, como na Linguagem Corporal e Social. Não tem como causa falta de interesse, de motivação, de esforço ou de vontade, como nada tem a ver com acuidade visual ou auditiva como causa primária. Dificuldades no aprendizado da leitura, em diferentes graus, é característica evidenciada em cerca de 80% dos disléxicos. Veja também Disgrafia e Discalculia. ( Dislexia; você sabe o que é? – Zeneida Bittencourt)
                                                                          

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Novas disciplinas na educação básica dividem opiniões


Novas disciplinas na educação básica dividem opiniões do Legislativo e Executivo 29 de janeiro de 2015

Filed under: Sem categoria — José Antonio Küller @ 2:23 pm
Clipping Educacional – 29.01.2015
Agência Senado - Revista Gestão Universitária – 28/01/2015 – Belo Horizonte, MG
Os senadores devem votar em 2015 várias propostas que incluem disciplinas à grade curricular dos ensinos fundamental e médio ou, pelo menos, tornam obrigatória a discussão sobre determinados assuntos nas já existentes. Apesar das boas intenções das iniciativas de lei, o Ministério da Educação (MEC) não vê com bons olhos a criação de tantas disciplinas obrigatórias além das que já são ministradas nas escolas.
Durante a tramitação do PLS 2/2012 — que aguarda análise da Câmara dos Deputados e torna obrigatória a inclusão de disciplinas de ética no ensino fundamental e médio — o MEC divulgou nota técnica argumentando que a aprovação desse projeto não traria a solução mais adequada para tratar dos temas da ética e da cidadania no ambiente escolar.
a nota, o MEC relembrou que os documentos orientadores dos currículos “não sugerem a criação ilimitada de disciplinas nem de conteúdos, mas sim que a escola oportunize condições para que temas socialmente relevantes sejam incluídos e tratados no desenvolvimento dos conteúdos escolares”.
Seguindo a mesma linha, no relatório pela rejeição do PLC 20/2012 — que pretendia inserir o ensino de história em todas as séries do ensino médio — a senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE) apontou como “controversa” a inclusão de disciplinas ou componentes nos currículos da educação básica pela via legislativa. Essa tarefa, lembrou, compete à União, na figura do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação, em parceria com os demais entes federados.
Ao defender a rejeição à proposta, que a seu ver já é colocada em prática, a senadora lembrou que a amplitude curricular do ensino médio vem sendo apontada como uma das causas do desempenho insatisfatório de grande parte dos alunos dessa etapa, oprimidos por uma “perspectiva enciclopédica”, distante das necessidades cotidianas da vida e orientada apenas para os exames de admissão ao ensino superior.
“Não é por outra razão que o MEC e as secretarias estaduais vêm discutindo a reformulação dos currículos do ensino médio, que poderia se organizar em grandes áreas do conhecimento, com trajetórias forjadas a partir de escolhas dos próprios alunos”, argumentou no relatório. A matéria ainda aguarda análise da Comissão de Educação (CE).
Além de iniciativas dos próprios parlamentares, a maioria dos projetos em tramitação no Senado é fruto de sugestões feitas pelos alunos do ensino médio participantes do Projeto Jovem Senador, o que pode indicar lacunas que eles detectam, na prática, na grade curricular a que são submetidos no sistema educacional. A senadora Maria do Carmo defendeu urgência na busca por novas formas de tornar o ensino mais atrativo e relevante para os alunos.
Projetos
Embates à parte, há no Senado projetos que pretendem incluir mais matérias nos currículos escolares. É o caso do substitutivo da Câmara ao PLS 180/2004, que obriga os sistemas de ensino a garantir o ensino de libras e de outros métodos de comunicação como o sistema braile (para cegos) e o tadoma (para pessoas que são simultaneamente surdas e cegas). A intenção da autora, a ex-senadora Ideli Salvatti, é auxiliar os estudantes com deficiência ou transtornos globais de desenvolvimento, altas habilidades e superdotação no acesso ao conhecimento.
Esse projeto, originário do Senado, foi modificado na Câmara e, por isso, retornou para nova análise dos senadores. As alterações já foram aprovadas por várias comissões e agora só falta o aval do Plenário, de onde seguirá para a sanção da presidente Dilma Rousseff. Além de inserir disciplinas, o substitutivo também modifica o sistema de educação especial, que passa a ser apenas complementar ou suplementar, e promove a educação inclusiva ao impor o ajuste do ensino regular às necessidades das pessoas com deficiência.
utra proposta prevê também a inclusão do ensino de libras no currículo do ensino fundamental, preferencialmente do sexto ao nono ano e por professor habilitado em libras. O PLS 449/2013 é originário de uma sugestão feita por integrantes do Programa Jovem Senador. Também originário do Programa é o PLS 261/2012, que inclui nos currículos do ensino médio, em caráter opcional e fora do horário regular, a disciplina princípios de pedagogia, com vistas a estimular vocações docentes. As matérias aguardam análise da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).
Transversalidade e interdisciplinaridade
Há ainda propostas que pretendem tornar obrigatória a discussão de certos temas nas disciplinas já existentes. Um dos projetos em tramitação é o PLS 515/2013, que determina a inclusão, a partir do sexto ano do ensino fundamental, do tema transversal cidadania, uma maneira de conhecer as leis brasileiras e os direitos e deveres dos cidadãos. O PLS 183/2012 também prevê a realização, no ensino médio, de ciclos de debate bimestrais sobre a realidade social e política brasileira, com o convite feito a agentes políticos ocupantes de cargos eletivos.
O PLS 235/2013 prevê a oferta de uma língua estrangeira já a partir do quarto ano do ensino fundamental. Hoje, a obrigatoriedade é a partir do sexto ano. Essas três matérias vieram de sugestões do Projeto Jovem Senador. As sugestões dos jovens senadores são analisadas pela CDH e acatadas e transformadas em projetos de lei ou rejeitadas.
Já o PLS 74/2012, da senadora Ivonete Dantas (PMDB-RN), quer incluir nos currículos do ensino fundamental e médio, “conteúdos, adaptados a cada faixa etária, relativos à prevenção da violência contra a mulher, a criança e o idoso e aos mecanismos de proteção estabelecidos pela legislação para esses segmentos populacionais”.
Para a autora, a verdadeira mudança cultural necessária para modificar o quadro de violência do país depende da educação. Por meio dela, se formarão novos cidadãos, defensores de uma cultura de paz e de igualdade entre os sexos. Todos os projetos foram objeto de requerimento de tramitação em conjunto e aguardam análise da CDH e da CE.
Leis específicas que complementam a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) já determinam, atualmente, a inclusão de temas relativos ao trânsito, ao meio ambiente e à condição e direitos do idoso. Outros assuntos que afetam a vida humana em escala global, regional e local como saúde, sexualidade e gênero, vida familiar e social, direitos das crianças e adolescentes e preservação do meio ambiente também já integram os currículos.
Câmara
Outras propostas relativas a disciplinas da educação básica já passaram pelo Senado e aguardam aval da Câmara dos Deputados para serem enviadas à sanção presidencial e entrar em vigor. É o caso do PLS 2/2012, que torna obrigatória a inclusão de duas disciplinas de ética nos currículos escolares: Cidadania Moral e Ética para o ensino fundamental e Ética Social e Política para o ensino médio.
O autor, o ex-senador Sérgio Souza, aponta a discrepância entre a boa colocação do Brasil no campo econômico e os elevados índices de corrupção e ineficiência da Justiça, situação que, em seu ponto de vista, pede uma política educacional voltada para a formação moral e ética das crianças brasileiras.
A inclusão do esperanto — idioma criado no final do século 19 pelo russo Ludwik Lejzer Zamenhof — como disciplina optativa para os alunos do ensino médio também está prevista no PLS 27/2008. Já o empreendedorismo pode virar um componente extracurricular das escolas dos ensinos médio e profissionalizante caso o PLS 273/2006, do ex-senador Marcos Guerra, seja aprovado na Câmara dos Deputados.
Educação básica
A educação básica no Brasil compreende a educação infantil (creche e pré-infantil, até os 5 anos), as séries iniciais do ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano (de 6 a 10 anos), a segunda etapa, do sexto ao nono ano (de 11 a 14 anos), e as três séries do ensino médio (de 15 a 17 anos). O período mínimo de atividades letivas é estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 800 horas anuais distribuídas em, no mínimo, 200 dias de trabalho escolar.
Os currículos de todas as etapas são formados por uma base nacional comum, complementada em cada sistema de ensino (estados, municípios e Distrito Federal) e em cada estabelecimento escolar por uma parte diversificada. Muitas sugestões de inclusão de disciplinas referem-se a essa parte diversificada.
Os alunos da primeira etapa do ensino fundamental estudam: arte (incluindo música), ciências, educação física, geografia, história, língua portuguesa, matemática e ensino religioso (facultativo). Já os estudantes do sexto ao nono ano estudam todas essas e mais duas: inglês e espanhol.
Os alunos do ensino médio estudam mais disciplinas, por conteúdos que se tornam específicos nessa etapa: língua portuguesa, matemática, arte (incluindo música), química, física, biologia, geografia, história, filosofia, sociologia, mídias, educação física, inglês e espanhol

terça-feira, 30 de dezembro de 2014




       PRINCIPIOS DA DIALÉTICA
                                                                                    Filosofia*     



Para início de conversa, todos somos dialéticos, pois a consciência individual é formada a partir de um processo dialético, a saber, pela aquisição e pela confrontação de valores culturais pré-estabelecidos. Somente através da existência de um outro pode ocorrer a necessária auto-afirmação e a consequente diferenciação que nos caracteriza enquanto indivíduos em contínua formação. No entanto, num sentido mais restrito, dialéticos são aqueles que compreendem, aceitam e sabem usar as leis da dialética. Os dialéticos usam essas leis tanto como método para conquistar a verdade, tanto como instrumentos para mudar o mundo e a si mesmos. Poderíamos definir a Dialética como uma espécie de sistema metafísico dualista que explica a realidade a partir da luta de contrários. Porém ela é mais do que isso, ela é a própria realidade no seu desdobramento espácio-temporal. Em suma, a Dialética é uma fenomenologia.
Considerado uns dos iniciadores da dialética, Heráclito de Éfeso (540 a.C.- 470 a.C.) dizia, em um dos fragmentos que restaram de sua obra, que "tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia". Expressava-se de maneira contraditória, com o intuito de descrever o movimento dialético do mundo, no qual tudo é mutável e fluídico. Já Platão (428 a.C.- 347 a.C.), discípulo de Sócrates (469 a.C.- 399 a.C.), tentou unir a concepção heraclitiana de ser como móvel e múltiplo, com a concepção de Parmênides (530 a.C- 460 a.C), que via o ser como imóvel e unificado. Estabelece-se em Platão, uma síntese dialética das idéias dos filósofos anteriores, ao afirmar que o ser é ao mesmo tempo móvel e imóvel e também que este é múltiplo e unificado. Em suma, uma concepção de ser, que englobou a sua contrariedade.
Plotino (205-270 d.C.), uns dos principais neoplatônicos, vê a dialética como uma maneira de purificar a alma e chegar ao conhecimento das idéias eternas. Nos tempos modernos, Hegel (1770- 1831) fez de toda a história da Filosofia um movimento dialético que culminaria no seu sistema filosófico. Tese, antítese e síntese, que são os elementos principais do sistema idealista hegeliano. A tese é a idéia inicial, a antítese, a sua negação e a síntese decorre da resolução desta contradição numa nova idéia que englobe elementos das duas anteriores. Karl Marx (1818-1883), juntamente com Friedrich Engels (1820-1895), será o fundador de materialismo dialético, o qual inverterá o sistema idealista hegeliano, postulando que não é o pensamento que determina as condições materiais, mas as condições materiais que determinam o pensamento. Karl Marx faz da dialética um instrumento de análise e crítica social, com a finalidade não de interpretar o mundo, mas de transformá-lo. A luta de classes representaria uma constante tensão social que moveria as sociedades humanas através da história. A partir dela, Marx desenvolve uma série de conceitos, tais como ideologia, alienação, superestrutura. Somente uma sociedade sem classes, poderia ser uma sociedade justa e pacífica. Vemos uma continuação do projeto crítico nas obras dos chamados teóricos de Frankfurt, (Benjamin, Adorno, Horkheimer e Habermas) os quais utilizam as categorias marxistas na crítica da sociedade contemporânea.


A DIALÉTICA - O conceito, na visão de cada um.

HERÁCLITO DE ÉFESO >
Para ele a realidade é um constante devir. Prevalece a luta dos opostos: frio/calor, vida/morte, bem/mal... não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois nem o rio já é o mesmo e nem nós também somos os mesmos.
PARMÉNEDES DE ELÉIA > Segundo ele, o movimento é uma ilusão, tudo é imutável.
Para PLATÃO a dialética é um método de ascensão ao inteligível, método de dedução racional das idéias. "O conhecimento deveria nascer desse encontro (perguntas e respostas), da reflexão coletiva, da disputa e não do isolamento"
ARISTÓTELES > a dialética é apenas auxiliar da filosofia. Atividade crítica. Não é um método para se chegar à verdade, é apenas uma aparência da filosofia. Para ele o método dialético não conduz ao conhecimento, mas à disputa, à probabilidade, à opinião. Conseguiu conciliar os pensamentos de Heráclito e Parmênides com a teoria sobre o ato e a potência: as mudanças existem, mas são apenas atualizações de potencialidades que já preexistiam.
PLOTINO > a considera uma parte da filosofia e não apenas um método. Mas o sentido "método" predominou na Idade Média, ao lado da retórica e gramática e foi considerada uma arte liberal, a maneira de discernir o verdadeiro do falso.
No início da Idade Moderna a dialética foi julgada inútil, justificando que Aristóteles já havia dito tudo sobre a lógica. A dialética limitar-se-ia ao silogismo, uma lógica das aparências. (Kant e Descartes). Em Discurso do Método, Descartes propõe regras para a análise, para atingir cada elemento do objeto estudado e a síntese ou reconstituição do conjunto.
HEGEL > concebe o processo racional como um processo dialético no qual a contradição não é considerada como "ilógica", "paradoxal", mas como o verdadeiro motor do pensamento. O pensamento não é estático, mas procede por contradições superadas, da tese (afirmação) à antítese (negação) e daí à síntese (conciliação). Uma proposição (tese) não existe sem oposição a outra proposição (antítese). A primeira será modificada nesse processo de oposição e surgirá uma nova. A antítese está contida na própria tese que é, por isso, contraditória. A conciliação existente na síntese é provisória na medida em que ela própria se transforma numa nova tese. Para Hegel, a dialética é uma aplicação científica da conformidade às leis inerentes à natureza e ao pensamento, a via natural própria das determinações do conhecimento, e de tudo que é finito. É o momento negativo de toda realidade, aquilo que tem a possibilidade de não ser. A possibilidade de negar-se a si mesma. Hegel chega ao real, ao concreto, partindo do abstrato: a razão domina o mundo e tem por função a unificação, a conciliação, a manutenção da ordem do todo. Essa razão é dialética, pois procede por unidade e oposição dos contrários. Hegel assim retoma Heráclito.
KARL MARX > a dialética não é um método apenas para se chegar à verdade, é uma concepção do ser humano, da sociedade e da relação ser humano-mundo. Tanto Marx como Hegel sustentam a tese de que o movimento se dá pela oposição dos contrários - pela contradição. Na dialética materialista expressa em O Capital, Marx afirma que não existem fatos em si, é o próprio ser humano que figura como ser produzindo-se a si mesmo. Pela sua própria atividade, pelo modo de produção da vida material. A condição para que o Ser Humano se torne Ser Humano é o trabalho, a construção da sua história. A mediação entre ele e o mundo é a atividade material. - Mao Tse-tung (1839-1976) resume o pensamento de Marx: "a concepção materialista-dialética entende que, no estudo do desenvolvimento de um fenômeno, deve partir-se do seu conteúdo interno, das suas relações com os outros fenômenos, (...), deve-se considerar o desenvolvimento dos fenômenos como sendo o seu movimento próprio, necessário, interno, encontrando-se, alias, cada fenômeno no seu movimento, em ligação e interação com outros fenômenos que o rodeiam. A causa fundamental do desenvolvimento dos fenômenos não é externa, mas interna; ela reside no contraditório do interior dos próprios fenômenos. No interior de todo fenômeno há contradições, daí o seu movimento e desenvolvimento". Marx não nega o valor e a necessidade da subjetividade no conhecimento. O mundo é sempre uma "visão" do mundo para o Ser Humano, o mundo refletido. A dialética não é um movimento espiritual que se opera no interior do entendimento humano. Existe uma determinação recíproca entre as idéias da mente e as condições reais de sua existência "o essencial é que a análise dialética compreenda a maneira pela qual se relacionam, encadeiam-se e determinam-se reciprocamente, as condições de existência social e as distintas modalidades de consciência".
HENRI LEFÈBVRE > diz: "o método marxista insiste muito mais claramente do que as metodologias anteriores, ... a realidade a atingir pela análise, a reconstituir pela exposição (síntese), é sempre uma realidade em movimento". A dialética considera cada objeto com suas características próprias, o seu devir, as suas contradições. Não existem regras universais fixas. George Politzer diz : A dialética focaliza as coisas e suas imagens conceituais em suas conexões, em seu encadeamento, em sua dinâmica, em seu processo de gênese e envelhecimento", observa as coisas e os fenômenos, (...) no seu movimento contínuo, na luta de seus contrários. Para LEFÈBVRE: "A contradição dialética é uma inclusão dos contraditórios um no outro e, ao mesmo tempo, uma exclusão ativa." O método dialético busca captar a ligação, a unidade, o movimento que engendra os contraditórios, que os opõe, que faz com que se choquem, que os quebra ou os supera.
O materialismo dialético não considera a matéria e o pensamento como princípios isolados, mas com aspectos de uma mesma natureza que é indivisível, duas formas diferentes: uma material e outra ideal; a vida social, una e indivisível se exprime em duas formas diferentes: uma material e outra ideal. O materialismo dialético considera a forma das idéias tão concretas quanto a forma da natureza. O método dialético tem duplo objetivo:
1º) como dialético, estuda as leis mais gerais do universo, leis comuns de todos os aspectos da realidade, desde a natureza física até o pensamento, passando pela natureza viva e pela sociedade.
2º) como materialismo, é uma concepção científica que pressupõe que o mundo é uma realidade material (natureza e sociedade), onde o Ser Humano está sempre presente e pode conhecê-la e transformá-la.
A dialética marxista não separa teoria (conhecimento) e prática (ação). "A teoria não é um dogma mas um guia para a ação." A questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática. É na práxis que o Ser Humano deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento. A Dialética é uma unidade de contrários.
ROUSSEAU > a concepção dialética da história, oposta à concepção metafísica, da Idade Média, começa a criar forma. Para ele todas as pessoas nascem livres e só uma organização democrática da sociedade levará os indivíduos a se desenvolverem plenamente. O indivíduo é condicionado pela sociedade.
ENGELS > em: A Dialética da Natureza - formulou três leis gerais da dialética, a saber:
1ª - Lei da conversão da quantidade em qualidade: significa que na natureza, as variações qualitativas podem ser obtidas somente acrescentando-se tirando-se matéria ou movimento por meio de variações quantitativas;
2ª - Lei da interpenetração dos opostos, esta é a lei da unidade e da luta dos contrários, que garante a unidade e a continuidade da mudança incessante na natureza e nos fenômenos;
3ª - Lei da negação da negação, que garante que cada síntese é a tese de uma nova antítese, reproduzindo indefinidamente o processo.
Alguns princípios gerais ou características da Dialética são hoje aceitos:
1º Tudo se relaciona (princípio da totalidade) - a natureza se apresenta como um todo coerente, onde objetos e fenômenos são ligados entre si, condicionando-se reciprocamente. "A compreensão dialética se encontra em relação de intensa interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo, na interação das partes" (Karel Kosik, Dialética do concreto, p. 42, citado por Gadotti)
2º Tudo se transforma (princípio do movimento) Devir. A afirmação engendra a sua negação, porém a negação não prevalece como tal: tanto a afirmação como a negação são superadas e o que prevalece é uma síntese, é a negação da negação. O calor só pode ser entendido em função do frio.
3º Mudança qualitativa - dá-se pelo acúmulo de elementos quantitativos que num dado momento produzem o qualitativamente novo.
4º Unidade e luta dos contrários (princípio da contradição) - A transformação das coisas só é possível porque, no seu próprio interior coexistem forças opostas tendendo simultaneamente à unidade e à oposição.
· A contradição é a essência, a lei fundamental da dialética;
· Os elementos contraditórios coexistem numa realidade estruturada, um não podendo existir sem o outro.
· A existência dos contrários não é um absurdo lógico, ela se funda no real.
MANDEL >- A Dialética pode ser subdividida em "três níveis"
1º Dialética da Natureza - objetiva - independente da existência de projetos, de intenções ou de motivações do homem, que não age diretamente sobre a história humana;
2º A Dialética da História - Projetos humanos nas lutas das classes sociais - a realização desses projetos estão ligados a condições materiais, objetivos, pré-existentes e independentes da vontade dos homens.
3º A Dialética do Conhecimento - "que é uma dialética sujeito-objeto, o resultado de uma interação constante entre os objetos a conhecer e a ação dos sujeitos que procuram compreendê-los".


domingo, 26 de outubro de 2014

Filosofia – condições para o surgimento




                                                                            QUADRO: NASCIMENTO DA FILOSOFIA



                                            A desmitificação do mundo a partir das viagens marítimas

A Grécia (Hélade) nada mais foi do que um conjunto de cidades-Estados (Pólis) que se desenvolveram na Península Balcânica no sul da Europa. Por ser seu relevo montanhoso, permitiu que grupos de pessoas (Demos) fossem formados isoladamente no interior do qual cada Pólis desenvolveu sua autonomia.
Constituída de uma porção de terras continental e outra de várias ilhas, bem como também em virtude da pouca fertilidade dos seus solos, a Grécia teve de desenvolver o comércio como principal atividade econômica. Assim, e aproveitando-se do seu litoral bastante recortado e com portos naturais, desenvolveu também a navegação para expandir os negócios, bem como mais tarde sua influência política nas chamadas colônias.
A sociedade grega era organizada segundo o modelo tradicional aristocrático, baseado nos mitos (narrativas fabulosas sobre a origem e ordem do universo), em que a filiação à terra natal (proprietários) determinava o poder (rei).
Esse modo de estruturar a sociedade e pensar o mundo é comumente classificado como período Homérico (devido a Homero, poeta que narra o surgimento da Grécia a partir da guerra de Troia). Mas com o tempo, algumas contradições foram sendo percebidas e exigiram novas explicações. Surge, então, a Filosofia. Eis os principais fatores que contribuíram para o seu aparecimento:
- As viagens marítimas, pois o impulso expansionista obrigou os comerciantes a enfrentarem as lendas e daí constatarem a fantasia do discurso mítico, proporcionando a desmitificação do mundo (como exemplo, os monstros que os poetas contavam existir em determinados lugares onde, visitados pelos navegadores, nada ali encontravam);
- A construção do calendário que permitiu a medição do tempo segundo as estações do ano e da alternância entre dia e noite. Isso favoreceu a capacidade dos gregos de abstrair o tempo naturalmente e não como potência divina;
- O uso da moeda para as trocas comerciais que antes eram realizadas entre produtos. Isso também favoreceu o pensamento abstrato, já que o valor agregado aos produtos dependia de uma certa análise sobre a valoração;
- A invenção do alfabeto e o uso da palavra é também um acontecimento peculiar. Numa sociedade acostumada à oralidade dos poetas, aos poucos cai em desuso o recurso às imagens para representar o real e surge, como substituto, a escrita alfabética/fonética, propiciando, como os itens acima, um maior poder de abstração.
A palavra não mais é usada como nos rituais esotéricos (fechados para os iniciados nos mistérios sagrados e que desvendavam os oráculos dos deuses), nem pelos poetas inspirados pelos deuses, mas na praça pública (Ágora), no confronto cotidiano entre os cidadãos;
- O crescimento urbano é também registrado em virtude de todo esse movimento, assim como o fomento das técnicas artesanais e o comércio interno, as artes e outros serviços, características típicas das cidades;
- A criação da Política que faz uso da palavra para as deliberações do povo (Demo) em cada Pólis (por isso, Democracia ou o governo do povo), bem como exige que sejam publicadas as leis para o conhecimento de todos, para que reflitam, critiquem e a modifiquem segundo os seus interesses.
As discussões em assembleias (que era onde o povo se reunia para votar) estimulava o pensamento crítico-reflexivo, a expressão da vontade coletiva e evidencia a capacidade do homem em se reconhecer capaz de vislumbrar a ordem e a organização do mundo a partir da sua própria racionalidade e não mais nas palavras mágico-religiosas baseadas na autoridade dos poeta inspirados. Com isso, foi possível, a partir da investigação sistemática, das contradições, da exigência de rigor lógico, surgir a Filosofia.
Por João Francisco P. Cabral Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP