quarta-feira, 26 de março de 2025

 


SOBRE A PROLIFERAÇÃO DE CÂMERAS DE VIGILÂNCIA NA ESCOLA E PRINCIPALMENTE EM SALAS DE AULAS.

Por: Prof. Westerley Santos

Questão:

“Trata-se de uma área com prédios, cercada por muros altos, alguns com arames farpados, portões altos e de ferro, grades nos espaços internos, inclusive nos corredores, vigiada por câmeras de vídeos, regido por normas disciplinares que proíbe a livre circulação dos indivíduos, confinando-os em salas específicas, sendo vigiados por autoridades e tendo apenas 15 min. por dia para tomar sol”.

Pergunta-se:

Qual das três opções melhor se enquadra nas características citadas acima:

a)                      Penitenciária.

b)                      Quartel.

c)                       Escola.

        ................................................ 

As câmeras são para vigiar. Vigiar pressupoem desconfiar; desconfiar é duvidar por antecipação da boa fé da pessoa; (um princío ético e jurídico), desconfiar da boa fé, é presumir que a pessoa não tem honestidade, retidão, lealdade, valores éticos e morais. Logo; a premissa para a vigilância é que os vigiados não são probos, portanto, são suspeitos de improbidades, ´por isso, “precisam” ser vigiados.

Westerley Santos

 

1-POSICIONAMENTO CRÍTICO-SOCIOLÓGICO SOBRE A QUESTÃO DE CÂMERAS NA ESCOLA E SALA DE AULAS.


Após o fim da Skholé¹ grega até a modernidade, a Escola sempre foi alvo de ataques ferozes dos ditadores e manipuladores que sempre tentaram controlar o ensino e aprendizagem escolar, necessário à formação das consciências humanas, social e política dos nossos jovens. Principalmente os mais desprovidos. Seja por meio dos castigos físicos aos alunos (séculos XIX e XX), pelo controle exacerbado dos conteúdos, tempos e espaços escolares, seja pela intimidação e perseguição política aos professores na ditadura ou pelas normas disciplinares como “mapas de sala”, e agora, a vigilância eletrônica em sala de aula, que visa mais adestrar corpos e criar mentes dóceis; seres submissos, que formar cidadãos conscientes e críticos, como nos diz Foucault em seu livro: Vigiar e Punir.

“(...)Foucault mostrou na sua obra sobre “A Sociedade Disciplinar” que a distribuição dos indivíduos no espaço era orientada pela ideia de se ter cada sujeito em um lugar específico. Tal procedimento teria a finalidade de evitar a formação de grupos, facilitaria o controle das frequências e ausências, assim como determinaria a localização exata de cada um na Instituição. O princípio da ordem, desse modo, estabeleceu cada sujeito em um lugar, hierarquicamente controlado.

Quanto ao tempo, o filósofo observa que o controle também garante a qualidade do tempo utilizado de modo a não ser desperdiçado em atividades não úteis à Instituição. Esse controle é garantido por meio da presença contínua de fiscais e do afastamento de tudo que pode servir de distração ao vigiado. ” Foucault.

http://www.ibamendes.com/2011/02/foucault-e-deleuze-do-poder-disciplinar.html

Para Michel Foucault, a escola é uma instituição disciplinar que controla os corpos dos alunos através de técnicas de vigilância e punição. A escola é a instituição mais abrangente de controle, pois os alunos permanecem nela desde a infância até a maturidade. As técnicas disciplinares da escola fazem com que os alunos aceitem o poder de punir e de serem punidos. A disciplina escolar produz efeitos de poder, como o autocontrole de gestos e atitudes, através da vigilância. A escola disciplinadora é caracterizada por: controle rígido e detalhado elogio aos que se adequam às normas.




Gilles Deleuze amplia os conceitos deSociedade Disciplinar” de Foucault e vai ao ponto, em seus escritos sobre “A Sociedade De Controle”, ele diz:

“(...) O exercício do controle, agora aperfeiçoado pelo auxílio da tecnologia e pelo uso de equipamentos minúsculos, quase imperceptíveis ao olhar humano, (como as câmeras de vigilância) torna-se habitual no cotidiano das sociedades. O controle acaba sendo interiorizado pelos indivíduos, como se necessário e absolutamente vital. É o biopoder que organiza e controla a vida em todos os campos sociais”. Deleuze.

“Não há mais um espaço restrito para que o poder se faça sentir; pelo contrário, ele se faz presente em todos os lugares. Por conseguinte, é mais perverso, mais controlador, porque se sustenta no aparato das novas tecnologias de informação. O símbolo do controle agora não é mais o panoptico, mas a web, a rede digital de comunicação mundial, que concentra toda a informação dos indivíduos em bancos de dados. O princípio da docilidade continua, no entanto, o mesmo, pois os indivíduos entregam voluntariamente seus dados à vigilância”. Deleuze.

 

https://razaoinadequada.com/2017/06/11/deleuze-sociedade-de-controle/

https:// http://www.ibamendes.com/2011/02/foucault-e-deleuze-do-poder-disciplinar.html

https://webpages.ciencias.ulisboa.pt/~ommartins/images/hfe/momentos/sociedade%20disciplinar/Sociedade

%20de%20controle.htm

Ora! É exatamente contra estas ideias e práticas alienantes e acríticas, de dominação e submissão dos indivíduos que os Professores e a Escola na sua essência devem se insurgir. E, é exatamente em favor deste adestramento e controle dos corpos e mentes, que as câmeras em sala de aula se prestam. Portanto, não se trata de segurança ou inibição ao tratamento desrespeitoso e agressivo entre professor e aluno e vice-versa, nem de inibir a depredação do patrimônio público, e muito menos de evitar a prática de bullying em sala de aula.

Estes princípios e argumentos usados para a instalação de câmeras nas salas de aula são falaciosos. Caso fossem verdadeiros, estaríamos partindo da premissa de que a relação pedagógica na Escola é tão deletéria que a regra é o desrespeito e a violência entre professor/aluno, por isso a necessidade de câmeras de vigilância, e isso não é verdade.

Estaríamos partindo do princípio de que os alunos na sua maioria são depredadores, o que também não é verdade. A regra factual não é essa.

E quanto a prática de bullying, estaríamos assumindo que os professores são incompetentes e não conseguem regerem suas turmas e educar os alunos, que também não é verdade.

Portanto, se não são estas as verdadeiras razões para se instalar câmeras em sala de aula. Então quais seriam? Não outra! Vigiar e Punir! A quem? Os professores principalmente. Para que? Controlá-los e dominá-los. As ordens de quem? De uma mentalidade ditatorial e antidemocrática. É o que está no horizonte neste momento, sem uma discussão ampla em busca do consenso e ao arrepio das leis.

Não devemos perder de vista em que contexto histórico- político-social-educacional vivemos.

Estamos numa relação capital x trabalho, patrão/empregado, onde os trabalhadores (Inclusive da Educação), historicamente, são desvalorizados, explorados, reprimidos, submetidos a horários extenuantes e a exigências sem recursos, e agora também,  vigiados o tempo todo por camêras.

No período da escravidão, no Brasil, os Senhores de escravos (Patrões), criaram a figura do “Capitão do Mato” para vigiar os escravos. Depois, a mesma coisa nas primeiras fábricas do sec. XIX...com os “Mestres de ofício”, e os próprios patrões...

Com a divisão do trabalho, a lógica continuou a mesma até hoje, que o Capitão do Mato agora é eletrônico, os olhos do patrão são agora as câmeras de vigilância. As câmeras nos locais de trabalho, funcionam como os olhos atentos e permanentes do patrão ou representante deste, sobre o trabalhador, o tempo todo. A desculpa é a segurança!

 

¹ Skholé: é uma palavra grega que significa "tempo livre" ou "lazer". É a origem da palavra "escola".

A educação na Grécia Antiga era chamada de "Paideia" e tinha como objetivo formar um homem completo, cuidando de todos os seus aspectos.

“(...) Embora não preconize que a Educação, sozinha, possa transformar a sociedade ela tem o papel de origem de formar o Homem integral, desenvolvendo suas potencialidades para torna-lo sujeito de sua própria História e não objeto dela”. (p.18)

A educação é um instrumento de libertação Humana (p. 19) (...) Assim, a Grécia atingiu o ideal mais avançado da educação na antiguidade: a Paidéia, uma educação integral, que consistia na integração entre cultura e sociedade... Os gregos realizaram a síntese, entre a educação e a cultura... A educação do homem integral consistia na formação do corpo pela ginástica, a mente pela filosofia e pelas ciências, e na da moral e dos sentimentos pela música e pelas artes”. (p.30).- Moacir Gadotti – História das Ideias Pedagógicas.

 2- OS PRINCIPAIS ARGUMENTOS PARA MANIPULAR OS PROFESSORES E CONVENCÊ-LOS A ACEITAÇÃO SERVIL DE CÂMERAS EM SALA DE AULA SÃO, PRINCIPALMENTE:

a- Questão de Segurança e para o nosso bem:

A argumentação de que se trata de segurança não se justifica, pois, o ladrão, pula os muros, entra quebrar as câmeras e roubar, inclusive a própria câmera. Como já aconteceu. Significa que as cãmeras não protegeme nem evitam o assalto.

Alguns podem pensa: Mas inibe! É possível, mas não garante segurança pois, não impede, então é a sensação de segurança, por isso é uma falsa ideia de segurança. Além de possibilitar um distânciamento das autoridades de segurança por considerarem que a instituição está assistida. Lembremos os casos recentes de atentados em Escolas, principalmente nos EUA, foram todos realizados em escola com câmeras.

Pode-se pensar que filmando o delito prende-se o assaltante. Não necessáriamente, no Brasil a média histórica de resolução de crimes contra o patrimônio público é em torno de  1/3 dos casos registrados, considerando estabelecimentos que usam câmeras. 

O mais viável é a segurança física das autoridades especializadas de tempos em tempos e, quanto ao ambiente interno, uma Escola acolhedora, democrática, respeitosa com todos, que prioriza o bem-estar coletivo. 

b- As câmeras são para saber o que os alunos estão fazendo e nos proteger de algum delito?

Também não se justifica, pois, os alunos são adolescentes e o que os adolescentes fazem? Fazem coisas de adolescentes e farão escondido como sempre na história da humanidade. Além do quê, câmeras na Escola e em sala de aula fere a CF, o ECA e a LDB, e cria um ambiente de vigilãncia e desconfiança de todos contra todos, propicio ao “delito” ou ao que a autoridade escolar entender como delito. Pois em um ambiente assim, o bem-estar dá lugar para o mal-estar, para o sentimento de não lugar, de não pertencimento, de não acolhimento.

Pensemos: se a Escola precisa de câmeras para vigiar possíveis delitos de alunos, então, estaremos partindo do princípio que todos os alunos são potencialmente pequenos criminosos que precisam de vigilância ostensiva de câmeras em sala de aula, significa que falhamos como Escola, Educação e Professores. Significa que não há mais razão de ser do que estamos fazendo como Professores. O que faremos conosco neste caso? Se for assim; não precisa de câmeras e sim de refazer a escola. Falhamos!

(Câmeras na escola, em sala de aula para vigilância quer dizer que todos falhamos a começar pela Gestão que neste caso está passando um atestado de incompetência dizendo que não conseguiu fazer da Escola uma Escola e sim um panoptico de Foucaut).

c-      O argumento de que não faço nada errado, não tenho que me preocupar com isso” !

Este é um argumento falacioso pois, seria como dizer: não tenho nada com a guerra porquê vou me preocupar com as bombas? Ou, não fiz nada de errado porquê vou me proteger daquele tiroteio ali?

 

A questão não é se fazemos ou não algo errado. A questão verdadeira é que, de um modo ou de outro, pelas câmeras, o trabalhador está sendo vigiado e isso em si, já é uma violência psicológica, é ilegal, imoral, antiético e antipedagógico, além de ser um meio de controle e vigilância com fins de punição.

A própria câmera no local de trabalho sem autorização do trabalhador para filma-lo já e um procedimento intimatório, e isso, por si só, já fere sua liberdade individual, sua privacidade e dignidade (ver C.F.) como pessoa e cidadão, e tudo que advém daí, inclusive de não exposição de sua imagem e no caso dos alunos, fere o ECA e a LDB e a LGPD.


3- A QUESTÃO É OUTRA:  CÂMERAS NO AMBIENTE ESCOLAR E PRINCIPALMENTE EM SALA DE AULA É UM ERRO ÉTICO, MORAL, POLÍTICO, SOCIAL, LEGAL E PEDAGÓGICO.

1.    É um  um erro Ético porquê fere os quatro princíos da Ética, é uma violência, psicológica, fisica (no caso a privacidade de seu corpo), da liberdade e da consciência dos sujeitos do processo. Fere a dignidade da pessoa no seu direito individual de não exposição e vigilância, por intimidar e expor a pessoa sem autorização, caracterizando violência psicológica, moral e contra a liberdade, privacidade e integridade da pessoa humana. (Ver CF e Declaração Universal dos Direitos Humanos), LGPD.

“A boa-fé objetiva é um princípio basilar do direito, segundo o qual as partes possuem o dever de agir com base em valores éticos e morais da sociedade. Desse comportamento, decorrem outros deveres anexos, como lealdade, transparência e colaboração, do que é probo; integridade, honestidade, retidão. Duvidar da boa fé de alguém pode significar suspeitar que a pessoa está agindo de forma desleal ou com má-fé”.

2.    E um erro Moral porquê interfere nos hábitos e costumes, normas e regras de convívio social e profissional harmonioso e salutar em ambiente em que estas condições determinam o atingimento da finalidade da Educação. Atinge os direitos individuais/fundamentais da pessoa e do cidadão, do bem-estar e convivência social no ambiente de trabalho.

3.    É um erro Político porquê é contra o espírito democrático necessário a um ambiente Escolar, ao convívio social, ao consenso nas escolhas que determinam nosso modo de convívio e de bem-estar coletivo, profissional e de cidadão.

  Além de ser uma medida de "segurança" especializada, que no caso seria operacionalizada por particulares, não especializados em legislações e técnicas de segurança que é função dos órgãos estatais de segurança. 

4. É um erro Legal pois, fere artigos da ECA, C.F., LDB. da LGPD, da Declaração dos Direitos Universais e outros. (ver)

5.    E um erro Pedagógico porque fere a liberdade de cátedra, e a plena condição de liberdade para o ensino e aprendizado, (conforme C.F. e LDB), uma vez que professores e alunos estão sendo vigiados em suas atividades pedagógicas. Além de criar um ambiente inibitório para o ensino e aprendizado nas relações escolares, alunos/alunos, Professores/alunos, Alunos/escola. Interfere psicopedagógicamente de modo negativo, nas práticas e modos de ensino, relação pedagógica e abordagem que necessitam, por natureza cognitiva, de liberdade e naturalidade de ação para que o ensino e o aprendizado aconteçam espontãneamente. O que será afetado diretamente com câmeras dentro de salas de aulas como bem desenvolvido nos artigos abaixo. 




20/03/2025

 

 

 

 


Acórdãos e Artigos.:

. Câmeras na Escola: Salas de Aula, precisam ser espaços de onfiança.

https://jus.com.br/artigos/70034/a-liberdade-de-catedra-e-os-direitos-do-professor-em-sala-de-aula-em-tempos-de-perseguicao

https://www.jusbrasil.com.br/artigos/camera-de-vigilancia-em-escolas/207256478