Já enganados quanto à nossa permanência nele. Estúpidos, ingênuos em nossa tenra ignorância, vamos adquirindo as primeiras impressões do mundo ao nosso redor, exercitando nossos sentidos mais pueris, até alcançarmos a percepção, primeiro deles próprios, e depois do outro mais próximo a nós, até nos percebermos a nós mesmos como algo existente. - Sem saber que passaremos toda a existência tentando definir este ser que há em nós e que ao mesmo tempo, nos será para sempre estranho.
Experimentamos os sentimentos mais efêmeros e também verdadeiros e, ao experimentá-los, descobrimos que pulsamos e temos vida. E nos perturbamos diante de seu mistério. Na tentativa de decifrá-la ou defini-la, descobrimos que temos alma. Ainda que nunca sejamos capazes de entendermos nenhuma delas propriamente!
Que coisa é essa que me dá vida? Que coisa é esta a própria vida? É quando indagamos inevitavelmente sobre a finitude.
E aí nos deparamos com a única realidade inexorável a qual não se pode refugar. Deparamo-nos com a inevitabilidade da vida. O que não há escolha! E dar-se a angústia infinda que será para toda a existência nossa companheira, poucas vezes desejada, mas nunca tão banalizada, nos fazendo oscilar entre a coragem e o medo de ser e existir.
E passamos a indagar e a conviver para sempre com a ideia daquilo que sabemos que é, mas não sabemos o que é.
Neste ponto ao menos, os religiosos, estudiosos, filósofos, psicólogos e tanatologistas, estão corretos. Para se definir a vida é preciso mesmo que se defina antes a morte. Há mesmo uma interdependência que as une como um toque de Adão, os dedos do tempo e do espaço.
É se é verdade que tudo o quanto há, tudo que é, há e é, no tempo e no espaço, então posso concluir que a vida que a tudo dá existência, animada ou inanimada, só se realiza no tempo e no espaço. E, se a morte é a ausência de vida, e se vida é existência, só possível no tempo e no espaço, logo: a morte só pode ser uma não-existência, causada pela ausência de tempo e espaço.
Ora! Tempo e espaço estão inseridos, definidos ou sendo definidos por um lugar! Deste modo, a morte só pode ser um não-lugar, onde não há tempo e nem espaço. E, em sendo um não-lugar, é inevitável aludir Epicuro¹:
Mas, não entendo que estamos falando do nada. Não! A morte não é o nada, é a ausência do tempo, espaço e lugar.
Mas o que são estas categorias? São no mínimo dimensões de limites.
Então, se a morte é uma ausência das dimensões delimitadoras de tempo, espaço e lugar, mas não é o nada, só posso inferir que ela é algo que não se delimita por nada. Só me resta concluir que a morte é então, uma inexistência de tempo, espaço e lugar.
Mas, o que é o não-tempo, o não-lugar e o não-espaço sem ser o nada? Só pode ser a eternidade!
Mas, se tempo, espaço e lugar, não existem, são criações nossas, então como eu existo?
Ora! Existimos na
eternidade, onde não há início, meio e fim, passado, presente e futuro.
E minha existência aqui e agora? Neste lugar e tempo? Não é real? É, porque criamos estas categorias para delimitar nossa existência em nossa consciência, nossa presenticidade, nossa consciência da existência.
Assim como criamos
a matemática para quantificarmos as coisas, sem ser ela, as coisas ou o relógio
para medirmos o tempo, sem ser ele, o tempo. Que é também uma criação.
E a finitude, existe? Nestas categorias criadas sim, pois é necessário "voltar" ao estado do eterno.
Então o que é a existência? A existência é como a verdade, uma categoria eterna, pois ela é atemporal, sendo assim, ela participa da eternidade; então, o sábio que busca a verdade, do bem, da felicidade, do amor, da prória existência, da vida, só pode encontrá-la se participar, ele próprio, da eternidade.
Sobre Eutanásia -
ver Tomas Morus (O direito à Eutanásia)