sábado, 30 de julho de 2022

Para que serve a filosofia

PROFESSOR; FILOSOFIA SERVE PARA QUE?  

Esta é uma pergunta muito comum que alguns alunos nos faz. Há respostas clássicas e rápidas como: serve para nos ensinar a pensar criticamente ou serve para nos ensinar a conhecer a realidade por detrás das aparências ou ainda, serve para nos ensinar a conhecer a verdade e nos libertar das ideologias manipuladoras. Serve para tudo isso, mas não é só!

Grandes filósofos já abordaram esta questão: Tales de Mileto, Sócrates, Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Descartes, Dewey, Gilles Deleuze e Félix Guattari, José O. y Gasset, Marilena Chauí, entre outros, inclusive escritores importantes como; Fernando Pessoa e Machado de Assis.

Contudo, após todas estas explicações sempre fico com aquela sensação de que alguns alunos não se convencem muito do valor e importância da Filosofia, sobretudo para suas vidas práticas. Por isso, a pergunta sempre volta: Professor; filosofia serve para quê!? 

Talvez por dificuldade (cada vez maior) em pensar de modo abstrato, conceitual, crítico, para além do pragmatismo do mundo econômico, do imediatismo, do utilitarismo, promovido sobretudo, pela ideia capitalista de obtenção de resultados, o aluno se encontra entre; o que é isso? E para que isso; a Filosofia?  

É o Qundo das coisas úteis e das aparências, que lhe é apresentado todo dia pela mídia e redes sociais, como o mais importante. A posse, o dinheiro, os bens, o carro, a moto, o celular de última geração, o tênis de marca...  Deste modo fica longe a percepção da importância do mundo dos valores perenes para nossas vidas, como; a Ética, a Justiça, a Política, o Amor, a Amizade, o Conhecimento, o Saber, o Pensar, a Linguagem, a Arte...  

Talvez por falta da prática filosófica, não nos aprofundamos em questões como:  o que é utilidade? No sentido de servir. E o que é necessidade? No sentido de ser inevitável a nossa vida.  O, o que é o Humano, e o que é o Divino? No sentido da existência.

De tdo modo, mesmo que o aluno não perceba de início, ao perguntar para que serve a Filosofia? Ele está tendo uma atitude Filosófica, que é justamente perguntar, questionar, problematizar, querer saber, a partir de uma inquietação qualquer. Por isso, ele merece todo respeito e esforço possíveis para ser esclarecido sobre sua dúvida Filosófica.  Aristóteles tem uma bela passagem em seu livro: Protético.

Aristóteles: (384-322 a.C.)

“Se temos de filosofar,

temos de filosofar.

Se não temos de filosofar,

temos de filosofar.

Logo, em qualquer caso,

temos de filosofar”.

Mas, sinto que não basta uma resposta clássica ou tirada dos livros de filosofia. Percebo que é preciso associar a Filosofia às questões práticas da sua vida e de todos nós. É isto que pretendo fazer neste texto, para talvez, mesmo que limitado pela definição e espaço, possa responder ao meu aluno(a) de forma satisfatória e convincente; Para que serve a Filosofia?

Para responder a esta questão vamos seguir minimamente o percurso do pensamento filosófico que começa com:

  1. O Espanto! 

Espantoso! Por quê esta pergunta? Nunca ouvi perguntarem para que serve a Matemática ou a Física ou a Geografia ou as Artes. Também nunca vi estas áreas abordarem este tipo de pergunta e tentarem respondê-la. Claro, se assim fizessem, estariam fazendo Filosofia. Então, por quê se pergunta para que serve a Filosofia? E por que a Filosofia se preocupa em respondê-la? As respostas que me ocorrem, as estas perguntas nascidas do espanto só podem ser; há em cada um de nós uma vontade natural de saber, de entender o que não entendemos, somos Homo sapiens, queremos saber. O desconhecido nos causa Espanto. É aí que começamos a filosofar, a “usar” a Filosofia na prática para descobrirmos o que nos está encoberto e entendermos o que não entendemos. 


  1. A Pergunta!

Perguntar é um ato Filosófico. A pergunta, o questionamento, são atitudes Filosóficas iniciais de quem quer saber. As perguntas são as chaves para abrir a porta que nos convida a entrar na Ágora, na praça do debate e da discussão, as vezes conosco mesmos, onde acontece a reflexão, onde colhemos novos saberes para contrapormos aos que trazemos conosco. A Pergunta é o abre-alas para o desfile do conhecimento, rumo a apoteose do saber. Por isso, não se pergunta para que serve as outras ciências, pois, se, se perguntar, estará entrando na praça da Filosofia. 


Pode-se se dizer que esta é a primeira “serventia”

da Filosofia.

Nos inquietar diante do não-saber,

do ignorar algo! 


Mas, não se trata de qualquer pergunta, a pergunta filosófica é daquela que busca a origem da coisa que se quer saber. O que é a coisa? É aquela pergunta, que busca entender a coisa Como ela é? É aquela pergunta que busca as causas, a razão de ser, de existir é o porquê da coisa?  E por último, é aquela pergunta que quer saber a finalidade da coisa; é o Para quê é?  São estas as perguntas filosóficas. 


Pode-se dizer, então, que esta é a segunda “serventia” da Filosofia. Nos colocar diante das questões que nos espantam e assombram, nos levando pela pergunta, a buscarmos a origem, a definição, a razão de ser, e a finalidade de tudo, para que, racionalmente, debatamos e reflitamos sobre as coisas, profundamente, na intenção de entendermos a essência e a verdade das coisas, do mundo e de nós mesmos.


  1. A Análise Crítica!

Bem, de certo modo, até aqui estamos fazendo um tipo de análise da pergunta feita pelo aluno; para que serve a Filosofia? E, é assim que o Filosofar procede, analisando e separando em partes para avaliar, descrever, identificar os vários aspectos da coisa analisada, sem perder o todo da questão. Mas, e a crítica? Já que a Filosofia exige que a análise seja crítica!. 

Filosofia “serve” para analisarmos

Para alcançarmos a felicidade. criticamente a realidade,

evitando os (pre) conceitos e discriminações.

A crítica é a avaliação mais ampla e profunda que podemos fazer da coisa analisada, demonstrando os aspectos positivos e negativos e, diante disso, realizarmos um juízo de valor sintético, porém, aprofundado, de raiz, apoiado na realidade e nas várias implicações existentes. Isso, para não cairmos numa análise superficial, onde normalmente habitam o erro, o engano, os preconceitos e as discriminações. O senso comum por assim dizer. 

A Crítica é o juízo de valor interno e eticamente correto da coisa analisada, fazendo uma relações com o mundo exterior.

               Separando as partes da pergunta para análise...

O termo servir na pergunta, traz a ideia de útil, utilidade, para que serve a Filosofia? Tem a mesma intencionalidade de; qual a utilidade da Filosofia? 

Pois bem, qual é o aspecto positivo desta ideia? Uma possível é que ao indagar sobre sua utilidade o aluno está querendo saber onde pode usar ou aplicar a Filosofia em sua vida prática, como pode usá-la em seu benefício. No mínimo ele quer entender para quê Filosofia na prática? Qual a sua finalidade, qual a sua utilidade? E isto, é positivo do ponto de vista prático. 

O ponto negativo desta ideia é que, servir é o mesmo que usar algo e, a Filosofia não se usa, só podemos usar o que é um objeto. Mas então, o aluno poderá pensar que a Filosofia não se aplica na prática! O que é um engano que ele ainda não percebeu. Por isso, a necessidade de continuarmos esta análise. 

        4 – O Juízo....

Até aqui, nossa análise demonstrou que para a Filosofia não se aplica a ideia de uso, de utilidade. A ideia de utilidade se aplica tão-somente aos objetos, pois são eles que têm esta função. Natureza, pessoas, sentimentos, emoções, arte, pensamento, são de outra característica, não podendo ser classificadas como úteis ou inúteis. Pessoas, por exemplo, não podem ser definidas como úteis ou inúteis, assim é também para a razão e o pensamento, assim é para a Filosofia. Logo; a função da Filosofia não é ser útil ou inútil, isto cabe aos objetos. 

A função da Filosofia é nos ajudar a pensar, a raciocinar de modo correto, amplo e profundo sobre todos os mundos: espiritual, humano, dos fatos, das coisas, da natureza, da sociedade, da fé, relações humanas...  Não se pode fabricar uma bomba com a filosofia, ela não tem essa utilidade, esta função. A função da Filosofia é analisar criticamente, pensar e orientar nossas ações mais humanas, é indagar valorativamente.

Exemplo: Para quê bombas? Por que há guerras? O que causa a violência? O que é a violência? Como devo agir para evitá-la? Isto é correto? Por quê? É este o caráter necessário da Filosofia, e não o de uso ou utilidade como pensa o senso comum. 

Então, podemos dizer que a Filosofia “serve” para

avaliarmos e julgarmos como as coisas são

ou deveriam ser, como agirmos ou deveríamos agir

na prática, diante da realidade do mundo.

Isto, com base em ideias , princípios e valores universais sobre as questões mais

essenciais à humanidade.

        5 – Aprofundando e ampliando a questão.

Até aqui, ainda não respondi satisfatoriamente o que o aluno quer saber. Que me parece ser; após estas análises, “se, a Filosofia se aplica a nossa vida prática e em que circunstâncias? ” 

Bem! Como vimos a Filosofia não trata das superficialidades da vida, ela pretende ir a fundo nas questões mais essenciais e fundamentais à nossa existência e ao nosso modo de pensar e agir no mundo. Um bom exemplo disso é a aplicação da Filosofia no campo da Ética. 

A axiologia é o estudo dos valores, onde o mais importante é a Ética, uma reflexão filosófica sobre os valores mais humanos que nos leva a consciência do agir correto sobre o mundo da Natureza, da Moral, da Justiça, da Virtude, do Bem, da antiviolência, do fazer político ou seja, sobre nossas ações na vida prática rumo à felicidade e a preservação da própria vida. 

Então, se, a Filosofia se aplica ao campo Ético

e, a Ética está no campo da vida prática,

então; pode-se dizer que a Filosofia se aplica

a vida prática.

Estas reflexões éticas geram ações práticas nas Leis, na Política, na Moral, na aplicação do conhecimento científico, nos costumes, no Direito, em nossos valores, entre outros. 

Outro exemplo, é a aplicação da Filosofia no campo da ação Política. A consciência de cidadania, de justiça, de Direitos, próprios dos sujeitos políticos que somos, são práticas da vida cotidiana que se tornam cada vez melhores, quanto mais compreendidas e orientadas pelo pensamento Filosófico que temos sobre elas.

É nossa ação na sociedade que define a qualidade de vida que teremos. No campo da Política estão: nossos direitos, nossas oportunidades, nossa vida produtiva, acadêmica, cultural, artística, econômica, social, de lazer, de justiça, do conceito e prática da Democracia, é que estão na ordem do dia da nossa vida prática. 

Então, se, a Filosofia se aplica ao campo político e,

a Política está no campo prático,

então; pode-se dizer que a Filosofia se aplica a vida prática. 

Continuando, há um outro exemplo de “serventia” da Filosofia que é o campo do diálogo. Somos seres de linguagem. Esta cria mundos imaginários e reais, planos e realizações, são meios de expressão de nossos sentimentos, emoções, paixões, sonhos, pensamentos e ideias. 

Pela linguagem expressamos nossos desejos, nossas relações sociais, políticas, obtemos conhecimentos e entendemos as lições da Fé, das artes, da História, das angústias e do sofrimento. A Linguagem nos dá condição de pensarmos o mundo e a nós mesmios. A linguagem nos oferece o saber, a ciência, a música, a poesia, nos faz quere definir o amor e a felicidade... E tudo isso se faz pelo diálogo com nossos pensamentos, com o outro ou com todas estas áreas. E isto, é vida prática! Logo:

Se, a Filosofia atua no campo da Linguagem

e, a Linguagem está no campo prático,

então; pode-se dizer que a Filosofia se aplica a vida prática. 

A Filosofia se faz pelo diálogo, pela ação mental e lógica do debate, da dialética, que desfaz as falácias da ideologia dominante, se pões contra o engano e em busca da verdade.

Com o uso refletido da Linguagem, criamos, desenvolvemos e analisamos conceitos que servirão de bases para outras áreas e para nos localizarmos no mundo e na vida.

Um outro exemplo de “serventia” da filosofia é o campo da Estética, do amor, da amizade. Somos seres de sentimentos e percepções de mundos. E expressamos estas percepções, sensações e sentimentos principalmente pelas Artes. É a Estética - a razão da sensibilidade humana. Percebemos isso claramente na poesia, na música em um bela pintura....

Somos seres racionais, mas também, somos seres de emoções e paixões, de sensibilidade para com o outro e com o mundo. Passa pela sensibilidade, a nossa identidade e solidariedade para com tudo isso!. Passa pela sensibilidade a percepção de que, somos iguais enquanto espécie e diferentes como indivíduos. Então:

Se a Filosofia atua no campo da sensibilidade,

e esta faz parte da vida prática,

logo: a Filosofia se aplica a vida prática.

Um outro exemplo de “serventia” da Filosofia é o campo da Lógica, da Ciência e Conhecimento, a Epistemologia. 

A Lógica não é um saber em si, é uma ferramenta da razão. Mas, como toda ferramenta, só tem aplicação se soubermos como ela funciona e para quê. A Filosofia entendeu isso de princípio e ajudou a desenvolver as potencialidades da Lógica. Criando com Aristóteles a Lógica Formal, aquela que demonstra e distingue o raciocínio correto (válido) do incorreto (falácia).

Quer um exemplo?


Se chover a rua molha,

Não choveu.

Logo: a rua está?

(Se sua resposta for: que a rua está seca, seu raciocinio etá errado.)


O conhecimento científico (Episteme), talvez seja a maior conquista da nossa capacidade intelectual dos ultimos Séculos. Em quatro séculos de ciência moderna, (1600 a 2000 d.C.)  A Humanidade deu um salto de conhecimento em todas as áreas do saber, maior que em todo o período anterior, a contar das civilizações antigas (3.500 a.c.). 

A Filosofia, junto com os fenômenos da natureza, talvez seja a principal fonte de questões e temas que depois, quase sempre, são pesquisados e desenvolvidos pelas Ciências, como: 

A Neurociência, a Robótica , a Nanociência, a Bioética, os Transgênicos, os Fractais, o Metaverso... são só exemplos do avanço do saber científico moderno.  O conhecimento científico nos tirou das incertezas e enganos das opiniões (Doxa) e nos trouxe para mais próximos da verdade, (Episteme), a partir das indagações da Filosofia. Então:

Se, a Ciência, a Lógica, a técnica e

a tecnologia estão em nossa vida prática e,

a Filosofia participa destas questões,

Logo; a Filosofia se aplica ao mundo prático.  

Um outro exemplo de “serventia” da Filosofia é a Cosmologia. Área de conhecimento da Filosofia nascente que cuida das questões da Physis ou natureza. 

Hoje esta área se dividiu em Física, Química, Astronomia, parte da Geografia que buscam entender a constituição e origem deste mundo físico. Inegavelmente estas áreas fazem parte de nossa vida prática.

Outro exemplo de “serventia” da Filosofia é a Psicologia. Área oriunda da Filosofia da Mente, (Psiquê), que investiga a mente humana, desejos, paixões, sentimentos, angústias, prazeres... Questões que fazem parte de nossa vida prática e dizem de nossa personalidade. Os estudos sobre nosso cérebro e mente, como a Neurociência, por exemplo, são fundamentados pela Filosofia da Mente. Então:

Se, a Filosofia se aplica ao campo da Física e da Psicologia

e estas, estão no campo da vida prática,

pode-se dizer que a Filosofia se aplica a vida prática

Outro exemplo é a Antropologia; área da Filosofia que estuda o problema do pensar e fazer histórico e cultural do homem no mundo...  

É quando perguntamos quem somos nós? Quem é o Humano, o homem? O que é a cultura? Quanto de nós é dado pela natureza, quanto é dado pela cultura e pelos valores? São questões que conversam com todas as áreas em que o ser humano participa. A Biologia, por exemplo, é um braço da Antropologia na medida em que, quer saber quem somos e como funcionamos biologicamente.

Outro exemplo bem prático em nossas vidas, é a questão Metafísica. Área de estudo da Filosofia que investiga o SER, a essência, o existir de todas as coisas. Junto dela a questão da Fé, da crença, da espiritualidade e Religiosidade. A questão da exist~encia de DEUS. Logo:

Se, a Filosofia participa da existência do homem

no mundo, em seu fazer e pensar na cultura, na fé e na sua espiritualidade,

se tudo isso faz parte da vida prática,

então; a Filosofia se aplica a vida prática.

São temas tratados pela Filosofia na Teodiceia ou Teologia. E, embora sejam assuntos ligados a espiritualidade, são também da prática de nossas vidas. Quem é Deus? Deus existe ou nós o criamos? O que é a Fé? 

É a partir destes estudos que a Filosofia elabora suas questões mais originais sobre todas as coisas, como: O que é a coisa? Como é a Coisa? Por que a coisa existe ou não existe? O que faz a coisa ser esta coisa e não outra coisa? Perguntas que nos conduzem no mundo e na vida prática. 

Por último, mesmo que não acabe aqui, acabamos circunscritos na questão que talvez seja a mais universal entre todas para os seres humanos. Aquela que todos, igualmente, buscam por toda vida e que talvez, seja o motivo maior que faz a vida valer a pena.- A Felicidade!.

Está é a grande motivação da existência da Filosofia, a razão de ser de toda a Filosofia desde seu surgimento no Séc. VI. a.c. com Tales de Mileto, chegando principalmente em Sócrates, Platão e Aristóteles no Séc.V.a.c.  

O que estamos procurando no mundo? O que queremos todos nós? Para que vivemos? Para alcançarmos a felicidade. Mas, O que é a Felicidade? Ela existe? Como alcançá-la? Por que buscamos a Felicidade? Como ser feliz? Por isso a importãncia e necessidade de Filosofia. Meu caro!

"Uma vida sem reflexão filosófica não é digna de ser vivida"?

São questões práticas que vão muito além das preocupações com as posses, o dinheiro, os bens, o carro, a moto, o celular de última geração, o tênis de marca, a roupa ou a moda. Estas são coisas uteis. A Filosofia, é uma coisa necessária à existência humana. Podemos dizer por fim, que:

Se, a busca da Felicidade

é o motivo maior para vivermos,

e, se viver é uma a prática.

Então; a Filosofia que é a busca deste caminho

pela razão e pela sensibilidade,

se aplica inteiramente à nossa vida prática.

Assim, deixo ao meu aluno estas indagações para que ele mesmo por sua própria iniciativa busque; pelo espanto, sentir, questionar, investigar, analisar, ajuizar, criticar, aprofundar, refletir, pensar e descobrir por sua própria razão a resposta da pergunta que me faz. Na esperança de aplicá-la em sua vida prática, para que se torne cada vez mais, uma pessoa melhor, e depois, contar a todos nós, para que serve a filosofia?

Boa sorte!


Texto Produzido pelo Prof. Westerley Santos. Jun/22




 





quinta-feira, 5 de maio de 2022

Capitalismo x socialismo

 

QUADRO COMPARATIVO


Veja texto com mais detalhes ao lado no menu ( TEXTOS DE APOIO)






FONTE: https://www.diferenca.com/capitalismo-e-socialismo/
https://www.todamateria.com.br/diferencas-entre-capitalismo-e-socialismo/






segunda-feira, 14 de março de 2022

Esquerda e Direita.



 Fonte: https://www.politize.com.br/esquerda-e-direita-historia-teoria/

     Texto sobre o que é Esquerda e Direita (aguardem...)


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Para que serve a Filosofia?

 



PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?

DIÁLOGO

ENTRE O CÉTICO E O FILÓSOFO

 

O cético é aquele que não acredita em nada, ou melhor; é aquele que duvida de tudo. Diferente do filósofo que duvida para descobrir a verdade, o cético duvida simplesmente porque não acredita na verdade.

 ... um certo dia o cético encontrou com o filósofo e logo foi lhe perguntando com um ar cético:

 Cético: - Diga-me, meu caro filósofo!  Para que serve a Filosofia?

 Filósofo—- Bem! Se, o sentido do termo “servir” que empregas, for o mesmo que útil, devo dizer-lhe que a Filosofia não serve para nada.

 Cético -  Eu já desconfiava!

 Filósofo – É que a Filosofia, não é uma Ciência (saber técnico) voltada para as utilidades, para os resultados instrumentais, construção de objetos ou para como as coisas acontecem, ela não é um juízo dos fatos.  A Filosofia é um juízo dos valores, é a Ciência das necessidades humanas.

 Cético – Começou! O que quer dizer isso?

Filósofo - É a busca do sentido das coisas, das causas e origens, dos meios e finalidades universais do homem e do mundo, ela é a busca do princípio uno de todas as coisas, da essência e não da aparência, da verdade e não da ideologia.

 - Dizia Aristóteles: (...) todas as outras ciências serão mais preferíveis que esta, mas nenhuma lhe será superior. ”

 Cético ­- E por que os filósofos usam palavras tão difíceis?

Filósofo – Não é que preferimos usar palavras difíceis, é que a filosofia é um pensar radical, que vai as raízes das coisas, em busca da verdade, sendo assim, as palavras usadas, devem expressar exatamente aquilo que é, e não outra coisa parecida.  Além do mais, palavras expressam conceitos e conceitos expressam idéias, sendo assim, não se pode usar quaisquer palavras para expressar uma ideia, pois, se corre o risco de passar conceitos e ideias falsas, e isso seria impreciso, logo; diferente do que a coisa é. 

           “ Alguém já disse que “iniciar na filosofia é aceitar o desafio das palavras” 

 Cético — E qual é a definição de Filosofia?

Filósofo —- Muitos em 2.500 anos de existência da Filosofia já tentaram responder a esta questão, e nenhum conseguiu expressar em um conceito, o todo que a Filosofia é. Admitem alguns que a Filosofia é um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos homens... outros a consideram um estudo da sabedoria, do conhecimento perfeito de todas as coisas humanas...

 Outros ainda, que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer rumo à felicidade humana.

 Há também quem a defina como um saber, que deve ser posto em prática na transformação do mundo a fim de alcançar justiça e felicidade, um despertar para ver e mudar nosso mundo.

Aristóteles dizia que filosofar é uma necessidade humana e portanto, inevitável.

Por fim, há aqueles que a define como um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.  O certo é que todos esses conceitos acabam por reduzir o verdadeiro significado da Filosofia.

Mas, para simplifica, digo que a Filosofia é um reaprender a ler o mundo em suas letras mais miúdas, interpretando e revelando as verdades mais ocultas desse texto cósmico, a fim de provocar nos homens, o despertar da sua própria consciência. .

  - A Filosofia não é outra coisa, senão, um entregar-se por completo as nossas próprias reminiscências*.(*lembranças da alma, memórias do espírito- Platão)

 

 Cético – E o que estuda a Filosofia?

 Filósofo – Bom! Suas perguntas exigem respostas longas. – Vamos lá: diferente das Ciências que estudam aspectos ou partes de uma realidade, a Filosofia, que não é uma ciência, estuda o todo,  sua pretensão é investigar e compreender a totalidade das coisas, por isso, dizem ser a Filosofia a mãe de todas as ciências, ela é um estudo universal.

Entendido isso, digo que a Filosofia estuda a lógica; que se ocupa com o problema da exatidão do raciocínio, mas não só, ela estuda também:

 A epistemologia; que se ocupa com o problema do conhecimento, a metafísica; que cuida dos fundamentos últimos de todas as coisas, a cosmologia; que investiga a constituição essencial das coisas materiais, a psicologia; que cuida da natureza humana e de suas faculdades mentais, a teodicéia; ou seja o problema religioso, da existência e natureza do divino,  a ética; da origem e natureza da moral, da virtude, do bem e da felicidade, da antiviolência, a política;  origem e estrutura do Estado, e do convívio humano em sociedade,  a estética; o problema do belo, da natureza e da arte,  a antropologia; o problema do pensar e fazer histórico e cultural do homem no mundo...e por fim, a cultura, a linguagem e a axiologia; que é o problema dos valores e princípios humanos. Resumindo é isso! 

 Cético - Mas, o que pretende a Filosofia afinal?

 Filósofo — A Filosofia não pretende outra coisa, senão, fazer com que o homem compreenda e    conheça primeiro a si mesmo, o outro, o mundo, o transcendente e as relações objetivas e subjetivas existentes entre eles. Em outros termos; ela pretende conhecer os princípios e finalidades do homem, do mundo físico e metafísico (para além do físico) para descobrir o sentido da existência de tudo isso.

.  Cético -- Mas, de que modo a Filosofia poderia alcançar esses conhecimentos?

 Filósofo – Pela investigação, a busca na raiz de todas as coisas, pela leitura do todo, pela      interpretação crítica; não só do que está escrito, mas do que está dito e escondido nas entrelinhas desse texto chamado mundo...pela perturbação; causada pelo aparentemente normal, e pela problematização; do óbvio, do comum, do habitual, do cotidiano... pela dúvida crítica, pelo abandono de todo dogmatismo e ceticismo, em fim, pela busca da verdade oculta sob toda ideologia e ignorância. –

  Já dizia Jean-Jacques Rousseau: “A filosofia é a condição que o homem precisa para saber observar uma vez, tudo que tem visto todos os dias”

 Cético - Mas, acaso a filosofia dispõe de instrumentos capazes de leva-la a essa finalidade?

Filósofo – Certamente! O instrumento da Filosofia é o exercício do Filosofar. E o Filosofar não é outra coisa senão a capacidade de admirar-se com o que lhe aparece diante dos olhos, é a observação demorada, é o ato de perguntar, de indagar sobre o que é? Por quê é? Como é? Para quê é ? Sobre todas as coisas. Filosofar é colocar a razão crítica à serviço do pensamento, em busca do entendimento lógico da coisa pensada. É o ato de fazer juízos corretos de valor, de reflexão, de abstrai-se, de pensar o pensamento pensado e ressignificá-lo. E por fim, fazer uso da palavra; reverberar! Expressar o resultado alcançado, abrindo para um nov

“A Filosofia surge do diálogo, da reflexão das situações vividas! ”

 Cético — E para quê a filosofia pretende conhecer o homem, o mundo e o transcendente?

Filósofo - O transcendente, para compreender o mistério, a origem e as causas, princípio e fim de todas as coisas que estão para além do mundo físico; - o homem, para entender a finalidade de sua existência-no-mundo; e o mundo, para saber como transforma-lo e melhor realizar a existência humana nele.

 Cético - E qual seria a finalidade da existência-humana-no-mundo?

 Filósofo -Supostamente a felicidade.

 Cético - E se a felicidade não for possível?

 Filósofo - Então, ao menos que saibamos como evitar o sofrimento!

 Cético - E como o homem poderia realizar sua existência-no-mundo?  

 Filósofo -A partir da humanização do próprio homem. da descoberta de si mesmo, de sua relação com o outro da leitura e interpretação corretas do meio em que vive e atua, do despertar da consciência crítica e de sua formação como sujeito (ser de ação, de consciência ética , de liberdade e responsabilidade). 

 Em um só termo: por meio da virtude e do conhecimento; da consciência e da liberdade de escolha; da vontade de ação para o bem.

 “Segundo Aristóteles, a felicidade está na mediania, no meio-termo, nem na falta, nem no excesso. É aí que reside a felicidade humana”.

Cético – Então, diga-me; como o homem poderá se tornar humano (sujeito consciente) querer e agir na direção do bem em um mundo de tanta maldade, violência e individualismo?

Filósofo -A premissa maior de toda Filosofia é que o bem habita em cada homem. Nenhum homem é nasce mal... Se não praticas o bem é porque desconhece verdadeiramente o bem. A questão é de ignorância, de não consciência do bem, e não de ser mal. Nenhum homem há de preferir o mal conhecendo verdadeiramente o bem. Por isso a filosofia busca a verdade.

-     E é o despertar da consciência de sujeito que tornará cada um, capaz de fazer girar a roda da virtude ou seja, (do bem, da justiça, da ética, da sabedoria) justamente o que nos torna humanos.

-           

           “Ser humano é reconhecer no outro, a sua própria humanidade”. Sócrates dizia que, aquele que tem a ciência (conhecimento) e a     sabedoria (virtude), há de querer invariavelmente o supremo bem, (a felicidade e a liberdade.) 

 

Cético —-Pois então meu caro! Responda-me esta última pergunta e me darei por satisfeito.

 O que poderá provocar esse despertar da consciência de que tanto fala a filosofia, para que homens se tornem sujeitos, livres de toda ignorância, preconceitos, ideologias, dogmas e ceticismos e passem a agir com retidão ética no caminho da virtude e da verdade, que pelo que entendi, visam a felicidade humana e o bem-viver?     

 Filósofo - Não vejo outra coisa, senão, a Filosofia.

 Cético – Será?

 

 

Texto produzido por:

Prof. Westerley   Santos/ Filosofia

 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O Papel social do Professor.

 




3. O PAPEL SOCIAL DO PROFESSOR¹

Maria José Ferreira Ruiz (*)

 

Falar do papel de educadores e educadoras na sociedade atual demanda entender como esse foi se constituindo através do caminhar da educação brasileira. Segundo Gadotti (1998), os cursos de formação de professores, mais especificamente o curso de pedagogia, é regulamentado no Brasil em 1969 no período da ditadura militar, fato este que remete a pensar em um educador passivo, apolítico, técnico sem preocupações sociopolíticas, com um agir totalmente desvinculado da realidade na qual se inseria. Dessa forma, oferece habilitações para supervisão, orientação, administração, inspeção e planejamento com conotações totalmente tecnicista, apoiada no treinamento desses profissionais para atuarem nas escolas com toda a objetividade possível.

Entender a forma que o curso de pedagogia foi regulamentado no Brasil se faz necessário a compreensão de como essa mentalidade, mesmo que de forma implícita, ainda permeia o agir de educadores e educadoras no momento atual, pois, como nos aponta Sany Rosa (2000), a formação do profissional da educação não se inicia, ao contrário do que se imagina, quando esse ingressa em um curso de formação de professores, mas sim desde o primeiro dia em que esse ingressa na escola como aluno. Suas representações e significados de educação, vivificados enquanto estudantes, são muito mais influenciadas pela sua vivência escolar do que com as teorias que venha a entrar em contado em sua formação acadêmica.

Sendo que grande parte dos educadores e educadoras que se encontram em sala de aula atualmente passou por todo esse sistema repressivo da ditadura militar e foram alunos de professores e professoras que trabalhavam sobre a égide desse momento histórico, se Sany Rosa tem razão, necessitam sempre refletir, questionar e rever sua prática pedagógica para não cair em um ciclo vicioso de reprodução dessa ação castradora. Para Gadotti (1998, p. 71) o profissional da educação precisa ser desreipetoso para questionar a realidade que a ele se apresenta para então promover mudanças sociais. Explicando melhor, apóia.se nas palavras do autor:

É preciso ser desrespeitoso, inicialmente, consigo mesmo, com a pretensa imagem do homem educado, do sábio ou mestre. E é preciso desrespeitar também esses monumentos da pedagogia, da teoria da educação, não porque não sejam monumentos, mas porque é praticando o desrespeito a eles que descobriremos o que neles podemos amar e o que devemos odiar. [...]. Nessas circunstâncias, o educador tem a chance de repensar o seu estatuto e repensar a própria educação. O educador, ao repensar a educação, repensa também a sociedade.

Desrespeitar, no enfoque de Gadotti, pode ser entendido como questionar. Educadores e educadoras precisam constantemente repensar e revisitar suas crenças mais intrínsecas sobre a representação que têm de educação, pois, de acordo com Paulo Freire, que já proclamava desde os anos 60, e de acordo com Gadotti (1998, p.72), a educação não é neutra. Ou se educa para o silêncio, para a submissão, ou com o intuito de dar a palavra, de não deixar calar as angústias e a necessidade daqueles que estão sob a responsabilidade, mesmo que temporária, de educadores e educadoras nos âmbitos escolares. Sendo assim, métodos e técnicas precisam ser secundarizados na discussão sobre a educação, o que se deve atentar prioritariamente é sobre a vinculação «entre o ato educativo, o ato político e o ato produtivo».

Nesse prisma, professores e professoras têm um papel sobretudo político e precisam problematizar a educação, buscando o porquê e o para quê do ato educativo; mais que isso, sua tarefa é a de quem incomoda, de quem evidencia e trabalha o conflito, não o conflito pelo conflito, mas o conflito para sua superação dialética.

No entanto, pergunta-se, até que ponto pode-se dizer que esse fazer dialético, problematizador, está presente no cotidiano escolar? Estão nossos professores e professoras, problematizando as questões, ou continuam se calando diante das injustiças? Trabalham para quem? A favor de quem? Estabelecem uma relação dialógica com o saber, buscando uma sociedade democrática e coletiva, ou reproduzem a lógica do sistema no interior das escolas através de seleções, de exclusões, de estímulo à individualidade e à competitividade?

Gadotti (1998, p. 74) entende que não há uma educação tão somente reprodutora do sistema e nem uma educação tão somente transformadora desse sistema. Essas duas tendências coexistem no plano educacional numa perspectiva dialética e conflituosa. Sendo assim:

[...] há uma contradição interna na educação, própria da sua natureza, entre a necessidade de transmissão de uma cultura existente – que é a tarefa conservadora da educação – e a necessidade de criação de uma nova cultura, sua tarefa revolucionária. O que ocorre numa sociedade dada é que uma das duas tendências é sempre dominante.

Sendo assim, o papel dos profissionais da educação necessita ser repensado. Esses não podem mais agir de forma neutra nessa sociedade do conflito, não pode ser ausente apoiando-se apenas nos conteúdos, métodos e técnicas; não pode mais ser omisso, pois os alunos pedem uma posição desses profissionais sobre os problemas sociais, não com o intuito de inculcação ideológica de suas crenças, mas como alguém que tem opinião formada sobre os assuntos mais emergentes e que está disposto ao diálogo, ao conflito, à problematização do seu saber.

Atualmente não se pode mais apoiar-se em teses que apregoam que a educação não pode mudar enquanto não houver mudanças estruturais no sistema. Faz-se necessário acreditar, com Gadotti, que, apesar da educação não poder sozinha transformar a sociedade em questão, nenhuma mudança estrutural pode acontecer sem a sua contribuição. A transformação social, que muitos almejam para uma sociedade mais justa, com menos desigualdades, onde todos tenham voz e vez, só será possível a partir do momento que se evidenciem os conflitos, não tentando escondê-los ou minimizá-los, mas que os tragam à tona, para que assim a educação não contribua como mecanismo de opressão, buscando a superação e não a manutenção do status quo.

4. EDUCAÇÃO: UM ATO POLÍTICO

Apegar-se no que já deu certo, por vezes traz em si um certo conforto que faz com que toda tentativa de mudança seja vista com temeridade. Na atualidade a sociedade encontra-se em meio a profundas transformações. Em vista das tecnologias, da rapidez de acesso às informações, dentre outros fatores, a superação das idéias hoje concebidas como apropriadas, amanhã são questionadas. Essas questões trazem consigo um certo desconforto e uma necessidade de rever sempre os conceitos. Entretanto, encontra-se nos dizeres de vários teóricos da educação, entre eles Gimeno Sacristán (1998, pp. 11-12), a dificuldade e a grande resistência do sistema educacional acompanhar tais mudanças:

Nesta época temos que pensar e decidir o percurso pelo qual queremos que transmita a realidade social e a educação dentro de coordenadas inseguras [...]. A crise dos sistemas educativos tem a ver com a perda da consciência em seu sentido [...]. Tomar opções não é fácil neste final de milênio em que vemos tombadas tantas referências e seguranças. A educação tem funções a cumprir; entretanto, estão ficando desestabilizadas pelas mudanças políticas, sociais e culturais que estão acontecendo [...]. Assistimos a uma crise importante nos discursos que têm guiado a escolarização nesta segunda metade do século xx. As práticas, entretanto, parecem seguir velhas seguranças, como se nada estivesse acontecendo [...].

Gimeno Sacristán toca em questões que fazem pensar sobre as mudanças educacionais que documentos formulados nos meados do século passado, como o Relatório Delors1 e os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), permeiam a esfera educacional. Entretanto, apesar de serem muito bem formulados e apontarem um norte à educação, são, por vezes, acomodados numa prateleira qualquer das escolas e por ali ficam, não acontecendo, então, a transposição teórico-prática.

Mais importante que criticar educadores e educadoras sobre a resistência a mudanças estruturais que delegam a essa categoria, e não querendo aqui cair em generalidades, seria refletir sobre o porquê de tal resistência. A quem interessa essa imagem de resistência criada em torno dos educadores? Quais são as possibilidades reais de se efetuar tais mudanças? Se, teoricamente, foram pensadas (as mudanças) com maestria, será que apontam como transpor para a prática? Que estrutura oferecem as políticas educacionais para que essas mudanças aconteçam na prática? Como foram pensadas e por quem? Atendem a especificidade da educação brasileira, ou, mais uma vez, trata-se de modelos copiados? Como foram apresentadas aos professores e professoras? Será que, ao mudar as regras do jogo enquanto esse acontecia, os jogadores foram consultados? Essas e outras muitas questões poderiam ser formuladas a respeito da formulação desses documentos que atualmente regem a educação brasileira.

Levantar esses e outros questionamentos se faz necessário para professores e professoras; porém, o que não se pode negar é a urgência de provocar mudanças nas esferas educacionais. Entender que, por vezes, as mudanças educacionais são propostas por tecnoburocratas e por alguns educadores que atingiram um certo nível de ilustração, não significa ficar alheio à realidade e a observar que a sociedade mudou, que as crianças estão envoltas hoje em um mundo «polifônico e policrômico [...] cheio de cores, imagens e sons. Muito distante do espaço quase que exclusivamente monótono, monofônico e monocromático que a escola costuma oferecer» (Kenski, 1996, p.133).

Sendo assim, precisa-se refletir sobre a urgência de criar-se nas escolas um ambiente que dê conta dessas transformações sociais, pois é nessa sociedade que alunos e alunas vão interagir, e, quem sabe, como idealizava Paulo Freire, provocar transformações que levem a um bem viver coletivo. A respeito dessa transformação que urge, Gadotti (1998, p. 81) nos diz:

O homem faz a sua história intervindo em dois níveis: sobre a natureza e sobre a sociedade. O homem intervém na natureza e sobre a sociedade, descobrindo e utilizando suas leis, para dominá-la e colocá-la a seu serviço, desejando viver bem com ela. Dessa forma ele transforma o meio natural em meio cultural, isto é, útil a seu bem-estar. Da mesma forma ele intervém sobre a sociedade de homens, na direção de um horizonte mais humano. Nesse processo ele humaniza a natureza e humaniza a vida dos homens em sociedade. O ato Pedagógico insere-se nessa segunda tipologia. É uma ação do homem sobre o homem, para juntos construírem uma sociedade com melhores chances de todos os homens serem mais felizes (grifos nossos).

Entender essa complexidade da ação educativa faz-se necessário para que se saia de posturas extremistas, ora endeusando ora demonizando quaisquer que sejam as mudanças no setor educativo. Endeusando, porque se nota nos dizeres de alguns educadores total apego a tudo que de novo apareça, caindo em verdadeiros modismos educacionais que apontam receitas sem nenhuma profundidade teórica. Demonizando, porque também se nota, nos dizeres de outros, total desapego ao que de novo apareça, ou seja, fortemente ligados à tradição, ao que deu certo, portanto, não deve ser mudado.

Posturas extremistas assim não contribuem para a necessidade de promover transformações na esfera educacional. Talvez o que falte à educação, ou melhor, no entendimento das pessoas que lidam com a educação, mais especificamente àqueles que propõem mudanças em nível documental, que formulam os dizeres que permeiam as políticas educacionais, que precisam e necessitam ser implementadas, porque muito bem formuladas, seja a consciência de que «a mudança se opera por ato e decisão dos homens juntos (fatores subjetivos) e levando em conta as condições concretas que possibilitam a mudança (fatores objetivos)» (Gadotti, 1998, p. 82).

Gadotti (1998, p. 83), assim como Paulo Freire, acreditam numa pedagogia transformadora que seja capaz de mudar comportamentos. Entendem que existem quatro categorias, entre outras, que posam contribuir para que a educação promova transformações substanciais: contradição, divergência, desobediência e desrespeito.

É a partir da contradição que homens e mulheres se percebem enquanto seres inacabados, com um conhecimento ínfimo da realidade que os cercam e em constante transitoriedade, o que leva a um certo desequilíbrio. Em relação a esse, Gadotti (1998, p. 83) diz que:

O que mantém o homem em pé é o equilíbrio de forças opostas. Esse equilíbrio é estático quando um pé age sobre o outro, mas o homem só avança quando toma o risco de desequilibrar-se, impulsionando um pé para frente, rompendo o equilíbrio. Romper o equilíbrio é um ato pedagógico transformador: significa impulsionar o homem para frente.

A divergência, enquanto ato pedagógico, por sua vez contribui para que educadores e educadoras entendam que vivem em uma sociedade plural e multifacetada; sendo assim, necessitam expor a seus alunos as várias possibilidades de encarar um mesmo conflito, abrindo um leque de atitudes possíveis na resolução desses conflitos.

A desobediência, como a contradição e a divergência, também é vista por Gadotti como um ato pedagógico transformador, pois é por meio dela que acontece o progresso humano. Ao ser capaz de dizer não às imposições do sistema, educandos e educandas reafirmam o seu eu. Essa desobediência pode ser individual ou coletiva, sendo a segunda entendida como desobediência civil. Professores e professoras precisam instrumentalizar seus alunos e alunas para que entendam que podem provocar mudanças substanciais a partir do momento que forem desobedientes no sentido de não aceitar as mazelas do sistema, desenvolvendo uma consciência crítica.

A última categoria apontada por Gadotti (1998, p. 84) refere-se ao desrespeito. Para ele esse desrespeito aconteceria muito mais no campo das idéias que no pessoal, ou melhor, educadores e educadoras precisam entender que podem e devem ir contra a submissão pretendida pelo sistema para provocar mudanças estruturais, se submeterem ao sistema, aos preconceitos imbricados nele perpetuarão a status quo, «e sua ação tornar-se-ia conservadora, já que incitaria o outro a permanecer na sua posição, na segurança que lhe dá o sagrado ou o consagrado em sua vida».

Nessa perspectiva, assim como Paulo Freire, Gadotti (1998, p. 85) defende que a educação não pode negar a sociedade que está inserida e a luta de classes que há nessa sociedade, pois o «avanço das lutas sociais modifica a fisionomia das lutas pedagógicas». Sendo assim, Gadotti defende que a educação pode promover nos estudantes uma consciência social e política, porém não política partidária, visando à melhoria da qualidade de ensino, à melhoria das relações interpessoais que se travam na escola, à melhoria da organização do trabalho que se desenvolve na escola, dentre outros fatores que só um estudante politizado pode reivindicar. Para Gadotti (1998, p. 85):

Estudante politizado é aquele que atua politicamente dentro e fora da escola. É um estudante que tem motivação pela qualidade, pela relevância social e teórica do que é ensinado. Passa a exigir do professor, tem interesse pelas relações humanas estabelecidas no interior da escola, discute a gestão da escola, o currículo, enfim, o projeto político-pedagógico da escola.

No entanto, pergunta-se: até que ponto esse espaço político almejado por Gadotti e Paulo Freire é oferecido aos alunos e alunas? Tem interessado a professores e professoras, mesmo aqueles que trabalham com os pequenos, desenvolver essa consciência crítica? O que se espera de um sistema escolar que classifica, separando os capazes dos incapazes, que não dá espaço ao mínimo questionamento de alunos e alunas que ali estão, sem encará-lo como ato de subversão? Será que o profissional da educação em seu que fazer reflete sobre tais questões, se educa para transformar ou para manter o status quo? Ou ainda, será que, ao entrar em contato com os ideais freireanos de educação para transformação social, consideram-no utopia? A respeito da utopia, Pierre Furter (1976, pp. 44- 45) já dizia:

Sem a utopia, não existiriam perspectivas, nem horizonte pro-fundo; sem a ação, a utopia se desfaria em abstração e em sonho delirante. Portanto, a utopia deve tornar-se concreta. [...]. As raízes da utopia consistem no fato de que o homem ainda não é um ser satisfeito, porque ainda não é perfeito, porque o mundo ainda não é acabado.

Sendo assim, antes de se depositar na utopia a imobilidade educacional, deve-se entender que a utopia é precisa porque reafirma a necessidade de transformação, que pode acontecer de forma lenta, mas que permea o «que fazer» de professores e professoras, a partir do momento em que a criança ingressa na escola, desde a educação infantil até os níveis superiores, pois não se pode esperar que o estudante que, desde pequeno é levado à submissão, cresça e se torne uma pessoa preparada para promover mudanças substanciais à humanidade.

Se algum profissional da educação ainda tem dúvida da necessidade de promover mudanças sociais é só olhar em torno de si mesmo e observar as mazelas que a sociedade atual vem criando: a fome, a miséria, as injustiças sociais, o desrespeito aos mais básicos direitos humanos. Gadotti (1998, p. 87) mostra que:

Educar nessa sociedade é tarefa de partido, isto é, não educa para a mudança aquele que ignora o momento em que vive, aquele que pensa estar alheio ao conflito que o cerca. É tarefa de partido porque não é possível ao educador permanecer neutro. Ou educa a favor dos privilégios ou contra eles, ou a favor das classes dominadas ou contra elas. Aquele que se diz neutro estará apenas servindo aos interesses do mais forte. No centro, portanto, da questão pedagógica situa-se a questão do poder.

Frente a essa imobilidade pedagógica que assola os meios educacionais, seja por insegurança, por apego ao que deu certo, ou por falta de vontade política, a escola vive às voltas de duras críticas2. A revista Veja 3 publicou um artigo escrito pelo colunista Diogo Mainardi com o título «Escola é perda de tempo», cujo conteúdo questiona a falta de eficiência da escola em fornecer aos alunos requisitos básicos como ler e efetuar as quatro operações. A leitura do artigo mexe com a auto-estima de professores e professoras, que se defendem colocando a culpa da falta de qualidade do ensino nas leis atuais e na ausência de reprovação. Questiona-se então, antes das leis mudarem, o que acontecia com essas pessoas que não conseguiam alcançar os requisitos básicos para avançar as séries do sistema? Quantas pessoas ficaram à margem da escola por desistirem frente a tantos obstáculos? Como incluir a todos se baixar a qualidade de ensino? Ou será que a escola é para poucos iluminados?

Volta aqui, a questão da necessidade de politização, tanto de professores como de estudantes, para que, compreendendo esse sistema, compreendendo como acontece a elaboração das leis, possam atuar sobre elas. No entanto, Gadotti (1998, p. 89) entende que:

Como pode o educador assumir um papel dirigente na sociedade se na sua formação o todo social resume-se a uns poucos conhecimentos de métodos e técnicas pedagógicas ou a uma história da educação que se perdeu no passado e nunca chega aos nossos dias? Como pode uma nação esperar que as novas gerações sejam educadas para o progresso, o desenvolvimento econômico e social, para a construção do bem-estar para todos, sem uma sólida formação política?

Apesar do ato político estar tão presente na fala de Gadotti, assim como na de Paulo Freire, ambos não reduzem o ato pedagógico ao político, mas concordam que, apesar da política não dar conta de toda a complexidade pedagógica, ela não deve ser ignorada na esfera educacional.

Concluindo, comunga-se com as palavras de Gadotti (1998, p. 90) que alia ao papel social de professores e professoras esperança em um futuro melhor para a educação brasileira:

Ao novo educador compete refazer a educação, reinventá-la, criar as condições objetivas para que uma educação realmente democrática seja possível, criar uma alternativa pedagógica que favoreça o aparecimento de um novo tipo de pessoas, solidárias, preocupadas em superar o individualismo criado pela exploração do trabalho. Esse novo projeto, essa nova alternativa, não poderá ser elaborado nos gabinetes dos tecnoburocratas da educação. Não virá em forma de lei nem reforma. Se ela for possível amanhã é somente porque, hoje, ela está sendo pensada pelos educadores que se reeducam juntos. Essa reeducação dos educadores já começou. Ela é possível e necessária.

Espera-se que os profissionais da educação acreditem nessa força que Gadotti lhes deposita, e desejem realmente participar da construção de uma nova educação para um novo mundo.

Nota do Blog: ¹ Recorte do ítem 3 da pesquisa   da  autoria Maria José Ferreira Ruiz; “ O papel social do professor: uma contribuição da filosofia da educação e do pensamento freireano à formação do professor”

BIBLIOGRAFÍA

Arroyo, Miguel G. (2002): Ofício de mestre: imagens e auto-imagens, 6.ª ed., Rio de Janeiro, Editora Vozes.

Furter, Pierre (1976): Educação e reflexão, 9.a ed., Rio de Janeiro, Editora Vozes.

Gadotti, Moacir (1998): Pedagogia da práxis, 2.ª ed., São Paulo, Cortez.

Gimeno Sacristán, José (2001): «A educação que temos, a educação que queremos», in Francisco Inbernón: A educação no século xxi: os desafios do futuro imediato, Porto Alegre, Artimed.

— (2000): Poderes instáveis em educação, Porto Alegre, Artes Médicas.

Haydt, Regina Célia Cazaux (1997): Curso de didática geral, 4.ª ed., São Paulo, Ática.

Kenski, Vani Moreira (1996): «O ensino e os recursos didáticos em uma sociedade cheia de tecnologias», in I. P. A. Veiga (org.): Didática: o ensino e suas relações, Campinas, Papirus.

Morin, Edgar (2001): Os sete saberes necessários à educação do futuro, 3.ª ed., São Paulo, Cortez.

Rosa, Sanny S. da (2000): Construtivismo e mudança, São Paulo, Cortez Editora.

Severino, Antônio Joaquim (2001): «Identidade e tarefas da filosofia da educação», in Educação, sujeito e história, São Paulo, Olho D’água.

Silva, E. T. (1992): Os (des)caminhos da escola: traumatismo educacionais, 4.ª ed, São Paulo, Cortez.

Notas

(*) Pedagoga graduada pela Universidade Estadual de Londrina com habilitação em Supervisão Escolar, e supervisora educacional de escola da rede particular de Londrina (Pr), Brasil.

1 Recomenda-se a leitura de Educação, um tesouro a descobrir.

2 A respeito do assunto, recomenda-se a leitura de Ivan Illich (1970), A sociedade desescolarizada, e Everett Reimer (1971), A escola morreu, entre outras.

3 Edição 1821, ano 36, núm. 38, 24/09/2003.